Restringida na opacidade das coisas e pessoas que não mudam.
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Pelo dourado dos dias
e os passos abafados do Outono,
o descanso. A ânsia dele.
No vidro líquido do fim do dia, soltam-se as aves.
Azul sem fronteiras e transparente.
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Restringida na opacidade das coisas e pessoas que não mudam.
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Pelo dourado dos dias
e os passos abafados do Outono,
o descanso. A ânsia dele.
Azul sem fronteiras e transparente.
Há ocasiões em que tudo parece conjugar-se para um estado de caos. E preocupação acrescida.
O mundo perigoso, o "lá fora". Cá dentro do país uma desorganização de direitos e deveres.
O lugar. Várias gruas e várias obras ao mesmo tempo, um barulho constante, cargas e descargas, explosões ou sons semelhantes, pó, blocos de pedra brutos e enormes camiões que entopem as ruas. Estamos sujeitos a horários, eu e todos os vizinhos, para abrir as janelas ou estender a roupa. Ansiamos pela noite.
Neste tempo de tanto calor e ansiedade é uma coincidência penosa que me desgasta e desassossega. Está para durar meses. Fecho tudo e os olhos.Porque se me inclina o coração para as crianças, os seus pézinhos de futuro. As aves, as suas asas a nascer, os seus vôos, estive uns largos minutos à espera de ver o "biberão" destas pequenas andorinhas.
Tenho-as espreitado todos os dias. Brevemente sairão pelo azul e a nuvem, ganharão força para as viagens. Irão revolteando nos céus estrangeiros, receberão outros olhares interessados?
Que mundos e horizontes contarão?
Sempre o via no quarto do filho. Tem uma história, lembrança, como tantas coisas e objectos cá de casa.
Antes do Natal de 79 ou ainda em 78? Queria comprar um "urso com ar feliz". Todos os que vi tinham um ar feroz e eu queria-o feliz. Dei voltas pelos bazares conhecidos, assim se chamavam as lojas de brinquedos (não havia centros comerciais ou supermercados de prateleiras imensas). Um dos colegas-amigos levou-me um fim de tarde, de carro, ao Bazar Paris, em Sá da Bandeira. E vi-o. Amarelo, alegre, quase do tamanho de um bebé, tipo "deita-te aqui comigo".
(agora os animais são enormes!)
Há-de haver uma fotografia qualquer algures onde estejam esse e outros brinquedos, muitos livros, uma baleia florida, um xilofone, um piano, animais em miniatura, um cavalinho de balançar... Algumas coisas guardei - serão inúteis.
Lavei-o bem há 5 anos, convencida que seria apreciado também passados 4 décadas. Solitário ficou anos, como enfeite e lembrança de que (eu) não queria separar-me. Hoje vi a imagem dele e do neto de uma pessoa conhecida, num telemóvel: dei-o a um outro menino (agora os nomes dos meninos são diferentes, este tem um nome "do Brasil").
Pedi à avó-outra para me fotografar a manta e o "ursinho" para recordar: há tantos anos que aqui ficaram, no canto do meu estimado filho! Porque há coisas intemporais.
Estes enredos, daqui para ali. Só mesmo a memória, cultivá-la, à saudade com raízes antigas, me prendem a certos lugares, a certas pessoas. Vejo-as hoje como há décadas. Andava, portanto, eu a "soltar" outras coisas, quando me aparece a casa, as cores que me são tão conhecidas. As jarras da avó, os pratos antigos, os esmaltes, as caixas, os tecidos, os livros, as fotografias de outras épocas. Os móveis comprados com risos e restauros "ad hoc".
(foste como um arco-íris na minha juventude)Coisas dessas, boas para falar e pensar num dia de tanta chuva.
Ou não-presença.
As letras das canções muiiito antigas prendem-se-me ou enredam-se-me no pensamento. A propósito de nada. Como por exemplo, "Aquela janela virada p'ró mar", voltam quase as letras completas, é incrível, nem sabia que as tinha fixado. Porque até nem gostava dessas letras, desses fados ou canções. Andei décadas sem me lembrar delas.
Tenho ciúmes das pedras que tu pisas
Do ar que tu respiras
E até das próprias brisas
Tenho ciúmes do sol, da lua cheia
De tudo o que te toca
Da luz que te rodeia
Dos próprios sonhos que tu idealizas
Tenho ciúmes
Das pedras que tu pisas
Não parece fácil, transformar o ciúme na falta que sinto: vontade-de-presença. Mas é o que sinto apenas por não estar.
Tudo o que diz, tudo o que faz, tudo o que olha. E eu não estou.
Relembrando. E como "eu mesma" não podia tirar fotografias, temos poucas. A primeira noite do resto das nossas vidas, com filho:
Estas ao acaso, pelos olhos azuis e pelos cabelos de caracóis louros. 44 anos em 2022.
Não fomos notícia mas a vida nunca mais é igual, isso eu sei.
Parabéns a nós os três, pai, mãe e filho. E à menina que nos continua.
Para vir ao meu jardim íntimo, para falar, teria de (me) explicar as tantas coisas que esvaziam e enchem os meus dias. Saudades novas a deixar saudades antigas. As conversas da minha menina-pássaro, as flores dos muros.
Os tempos, o da atmosfera, o dos dias, o do espaço, o das pessoas,
o amargo triturador de momentos bons.
Volto e (re)volto.
Li no "coiso" que hoje era Dia Mundial da Fotografia. Não ligo muito aos "mundiais" dias para tudo. Sou do tempo em que o dia da Mãe era o 8 de Dezembro e o da Mulher 8 de Março. Mas concordo que é preciso lembrar ao mundo algumas coisas de que se vai esquecendo: a Paz, a Terra, por exemplo.
Como tal dei uma vista de olhos por fotos antigas; procurava uma, específica, com a baía antiga de Ferragudo, que não encontrei. Em contrapartida, tinha algo digitalizado e à mão, de décadas atrás.
É isto, amar a Fotografia, lembrar porque gosto delas aos milhares. Os pássaros, as luzes, o meu barco ancorado para sempre nestes amores meus. Lugares, pessoas.
Da cabeça pensante e de outras, as físicas,
se fazem os dias de clausura. E as noites de pesadelos antigos. Sempre os mesmos lugares e gente conhecida. Como é possível, depois de anos de tantos dias e acontecimentos, o meu cérebro a dormir inventar outros?Lembro-me do emaranhado dos pinhais e bosques rasteiros, quando se atravessava para o mar de Cortegaça: esse era verde e no fim da travessia acocorados, havia as dunas e o azul.
Observei-as ontem, com a minha incompreensão antiga, do que era futuro no passado: tantos milhares de janelas "a ver o mar"!
... Perdidas. E assim faria um "PPP" de tons, sons diferentes. Porque ouço às vezes "L'Amitié" de Françoise Hardy, 1965, e tenho a maior parte da letra e música na velha lembrança:
"Beaucoup de mes amis sont venus des nuages
Avec soleil et pluie comme simples bagages
Ils ont fait la saison des amitiés sincères
La plus belle saison des quatre de la Terre
Ils ont cette douceur des plus beaux paysages
Et la fidelité des oiseaux de passage..."
Foram residentes dos dias. Agora, ou há muito, são aves migratórias do pensamento.
MA. morreu há mais de um ano, AS. há mais de 20.
L., a minha longa amiga companheira de dádivas, que sorria com a cara e os olhos, deixou-nos no início do ano 2000. O trio das belas palavras e livros sumiu-se. Outros de que não sei o rumo.
FM. vive longe e vidas (tão)diferentes. FC. perdida na memória de muito espaçadas notícias. PF. desapareceu do mapa, enriqueceu como calculado, aparece pelas redes sociais, se procurado, e é escultor "de santos".
Rasgos, riscos de frases. Algumas das cartas têm papel timbrado dos hotéis, de Londres. Pedras sobre assuntos?
Hoje estava a pensar (a minha mania) nas pedras. Aqui estava uma em frente, de 2005, um quartzo róseo, de Monfortinho, acho que me lembro do gesto de me baixar para a apanhar. Outra diz Algarve 2009 e é feita de conchas velhas incrustadas. Andam por todos os lados, gavetas e recantos, bocados de terras onde já não irei. Hábito de inúmeras ocasiões, pesado. Penso que, este hábito, tem a mesma idade das caixas e caixinhas e fotografias e escritos. Uma espécie de esqueleto invisível que segura a carne do espírito, da parte palpável, pelo menos. Agarro-a-pedra-agarro-o-espírito, da época.
E de (des)laços se vai fazendo este tempo vago entre as gentes que outrora se conheciam e davam. Sinto agudamente que estas realidades da doença, do medo, do contacto, torna muito distantes, muito mais distantes, os conhecimentos de antigamente. E não cria novos.
Do deserto também tenho uma "rosa", algures.
A lembrança das pedras que se vão semeando pelos caminhos pessoais, faz-me dar a volta a lugares. E ilhas negras, memoráveis.
Um dia há tempos, comecei a tarefa de as escolher e deitar fora as mais "impessoais". Alijar alguma da carga.
As outras... vão ficando. Quem as deitará ao lixo?
Parte um? Não sei.
A sensação ao voltar, desta vez de um vôo mais pequeno, é de:
Pena, de um sítio tão bonito já tanto e tanto descaracterizado
Sorriso, de encontrar as violetas em vazo antigo, floridas harmoniosamente, como saudação
A casa é um sítio seguro, dos cantos conhecidos, apesar de.Alguma confusão ao acordar de repente. A vacina, o cansaço, a inquietação? O sol? o mar?
A lua na madrugada de hoje tinha uma cor de nata. Ou de crisântemo. Ou de gardénia.
E a seguir vêm todos os pensamentos e lembranças da idade inocente. Sem conseguir adormecer de novo, repete-se nítida a sequência de imagens, nomes, cores, lugares, de há tanto tempo.
Que passagem é esta e até onde?
Serei eu?Ou quem?
De pensamentos inquietos que rodam e enrodilham. Nestes dias em que algumas notícias chegam, também de pessoas que nem conheço mas que considero conhecidas. Outras que me vieram à memória.
O absurdo do "sofrimento", sofrer continuadamente, algo que me assusta muito. Saber e sentir a dor. E veio-me à ideia uma exposição de desenhos de Goya, de bruxas e mulheres velhas. Não que aprecie particularmente as obras do pintor espanhol mas esta exposição - onde não se podia tirar fotografias - provocou-me sobressaltos. De certo modo, transtornou o meu bem estar na altura em que andei por lá, 2015. Esta noite pensei em algo de que agora não me lembro... mas tinha a ver, não com fantasmas, mas com ataques ou cercos à integridade física e psicológica. E as imagens das bruxas, das sombras antigas, a pairar na mente.
Subimos a vida, uma bela escadaria azul que nos promete a claridadeSão assim as tristezas, um assalto de vultos mal definidos. Curiosamente, ouço-lhes as vozes, eu que mal ouço no presente. Como num eco de sons vindos do espaço.
O espaço que ignoro onde esteja na minha cabeça.