Sunday, February 20, 2011

Ainda, as pedras








Porque me apetece ver um amor luminoso
eterno
datado
de tantas vezes que não dou por ele

Abre-se uma grade que range no tempo
um ferrolho que guarda
imagens de interrogação

Uma janela do mundo, um carinho de renda

expressão da pedra e do sentimento
num labor íntimo com o passado

Saturday, February 12, 2011

Pedras






Que olho ou vou (remo) vendo.
Segredos não mentiras.
Conservam a memória do frio, a memória do calor.

Porque me será esta apetência e este falar delas e com?
Dos veios, dos tempos, dos pés - dos princípios do mundo me sinto.

Tão nua e marcada como uma delas.

Sunday, January 2, 2011

Homenagem a uma Amiga


Recorda-se o tempo de rir, de contar convivências.
Sempre - a perda do tempo perdido.
O sofrimento, a coragem, o silêncio por fim.

Os velhos morrem tão velhos e os novos desaparecem tão novos
que entristece.
Adeus TD.

Monday, November 29, 2010

Tremer-temer




A uns minutos de mim.
Tremo por dentro como se uma grande cólera ou um grande sofrer.
O vidro gelado arrefece o sangue na minha fronte esquerda. Tenho de o fazer, encostar a pele e os ossos à barreira que me separa do lá fora.
Para abrandar as dores do presente, tantas as passadas e adivinhadas as futuras.

Sangue-suor que palpitava tão doce e fluído com a alegria das cores dum lugar mais novo.
Sangue-sofrido que gotejou no limite da dor.
Sangue-sinal que surgia sempre como um augúrio de fantasmas ou um choro interior.
Sangue-raíz.

Cão feroz interior aguardando o momento de saltar.

Sunday, November 21, 2010

20.11.2010




Alice
já não mora aqui.

Fui encontrá-la no fundo da recordação duma avó feliz.
Que foi o melhor dela.

Wednesday, November 10, 2010

Ninho





Recolho-me
encolhida no meu lugar de ansiedade
esperando que as teias
as redes
os emaranhados outros que me prendem o largar
se desfaçam por si ou pelo vento

e me deixem assomar as humildes as encobertas
rentes ao chão as flores
e me deixem viver do pólen de viver, dia a dia como os bichos pequenos
simplesmente

Saturday, October 30, 2010

Kitty




Parece-me que sim,
de repente e pelas coisas e pessoas que nos tiram da vida, do dia a dia vulgar,
parece-me entender porque é que os egípcios mumificavam os seus mortos, os enfeitavam de tantas cores e símbolos.
E as estátuas que em todos os tempos foram feitas.
Monumentos, homenagens.

E de todos os dias as lembranças.
(como sabias que íamos de férias e te deitavas dentro da mala?)

Kitty.

Tuesday, October 26, 2010

Pele de folha


Num repente e na luz oblíqua do fim de tarde,
a pele da folha.
A folha da pele.

(Estou num - outra vez e mais ainda - Outono; mas já gostava do Outono em Outubro, anos 60, quando o caminho do liceu era "um heroísmo", ainda assim, dourado
- lembro-me agora que caminha para o nascente, aquela rua antiga, a das Belas-Artes)

Friday, September 17, 2010

Caminhadas



Deixo à minha companheira de vôos últimos, Lizzie,

(sabrinas de insónias)

os espantos, as perguntas de Gonzalo
e as botas de caminhos perdidos
(ou ainda por encontrar)
Peut-être.
Quiçá.

De gestos rosados




"Quando a lua cai à terra traz perfume de rosas e pousa no meu lavatório (sorriso).

Outras vezes, quando a lua cai à terra, tem sabor de gelado de morango."

Fotos e gestos de M. trazendo-me a cor com um click.

Wednesday, August 25, 2010

Das marcas de nós









Um dia andarão atrás dos meus traços
meus passos
escritos
expressões de gestos
de fotografias

(como ando eu, a bisneta que sou de jornaleiros do Douro,
andará a bisneta da mulher que sonhou outras vidas?)

E quem?

Saturday, August 14, 2010

Corrida a passo








Passa-te a correr o cavalo da juventude

soltos
os suspiros do amor
os verbos da amizade

E o potrozinho selvagem que domesticaste
torna-se um cavalo cansado das barreiras
- ainda e por vezes
de olhos doces
mas baixos

Sunday, August 8, 2010

Lugar






Porque me disperso.
E correm-me nos olhos imagens duma beleza que dói.
***
Havia um tempo e um lugar
que já não existem
nem ele lugar como era
nem eu tempo como sou
***
E em cada década os amei a meu modo, maravilhado, infantil, violento, nostálgico.
O lugar. O tempo.
Ficam segredos nas pedras.
Risos e pés descalços.

(Vi hoje "Tess" e voltaram-me as cores secas e douradas do fim do Verão)