Wednesday, March 31, 2021

Vasto Alentejo 2001-2016

Numa altura, um ano inteiro, meses e meses, em que é tão difícil pensar para além desta prisão domiciliária...

... falam-nos de férias prováveis, juntos com o casal e a menina. Ponho-me logo "a sonhar " e a ver onde, como. Alentejo é sempre um lugar de apetites, de distâncias, de lugares, uns específicos, outros perdidos pelas planícies. Onde sempre se encontram as flores, as pedras, as árvores, as escavações, as fortalezas, as pinturas; o que mais quero? Ler a terra e o campo e o céu com os olhos em deslumbre. E estando com a minha família dilecta, directa.

Digo do mármore, há mais de 20 anos

Digo do campo



Digo dos pormenores importantes
 



Digo de um hotel no meio do nada e o castelo ao longe

Digo confessando: a vontade de me espolinhar no chão de ervas

Digo das modestas flores de Maio



 
Digo... que tenho saudades!
 De Estremoz e ao redor.

Wednesday, March 10, 2021

Se

Tantas coisas na nossa vida, de nós as duas, começadas por "Se...". 

Mãe. 





Era Outono e saíamos, provavelmente para ir a um médico, nessa altura já não passeavas connosco. Também poderia contar pelos dedos as vezes que o fazias, era tão difícil convencer-te!

Se... tivesses aproveitado esta pouca família que tinhas...



Wednesday, February 24, 2021

Livro de Mágoas

O "Livro de Mágoas", poesias de Florbela Espanca, foi editado pela primeira vez em 1919. Florbela nasceu em Vila Viçosa em 1894 e morreu em Matosinhos em 1930: viveu apenas 36 anos. Uma parte deles no Alentejo, o que me faz pensar na distância daqueles lugares, naquele tempo recuado. Talvez as palavras dela tivessem sido amassadas com os sentimentos dessa longitude deserta.

Sempre gostei, desde o liceu suponho, dos sonetos, nostálgicos e sofridos, desta poetisa. Mas tinha apenas uma vaga ideia da vida dela, o romance negro que foi a sua passagem neste mundo. O que corrigi agora, com a lembrança que me ocorreu: este lugar (aqui escondido) parece "um livro de mágoas". Nascimento e relações familiares tumultuosas que explicam o seu sentir de mulher pouco comum.

Lembro que Zeca Afonso cantava "...leva as mágoas para o mar..."

Mágoas que temos todos, das mais diversas, fundas ou das que passam como aves de arribação: muitas delas tornam aos mesmos lugares, como as mesmas aves. Neste tempo de estranhas formas de vida, surgem com mais intensidade, as perdas, os afastamentos.

Vila Viçosa, Maio 2009, fui visitar o seu túmulo, erigido naqueles tons do mármore que lembram a pele. Acho que hoje não iria.



O livro da colectânea dos seus "Sonetos" anda por aqui, na prateleira dos poetas, entre

Herberto Helder e a "Poesia Toda"

Frederico Garcia Lorca nos "Trinta e Seis Poemas e uma Aleluia Erótica", na bela tradução de Eugénio de Andrade

Fiama Hasse Pais Brandão nas "Fábulas"

Por demais as mágoas conhecidas.

A propósito de uma troca de mensagens com (a) M.(miga), eis que medito para mim: "Mágoa" é uma palavra de que gosto muito. Não é sofrimento, não é dor, não é saudade, não é sentir a falta, não é desespero, não é solidão, não é vazio. É tudo isso e mais. É ... mágoa, uma espécie de pena doce.

 


Thursday, February 18, 2021

De mar, a Foz


Passava como um tormento

na sua força de água

e no seu sopro de vento. 

***

Vi estas palavras quando vi a fotografia!

Thursday, February 11, 2021

Anseios e Vertigens

Todo este tempo - um ano após andarmos a passear e a correr à beira mar! - me dá vertigens. Vertigens da vida que somos forçados a levar,  neste momento em que sair é "não poder sair". E não é que eu saia muito... anyway, não gosto de ser forçada, nunca gostei. Procurei escapar às normas estritas sempre que possível no meu percurso, derivando, dissimulando, escondendo, inventando.

Deixo um apontamento pensado neste dia já Fevereiro-cinza-nevoento, como anseio. Que possa manter este lugar em que vivo, conservado há 40 e muitos anos, com porta de fechar e vidros de evitar. Tão habitado foi, conhecido e sossegado, rodeada das mil e uma coisas de viver; e ainda...

 

observar e fruir da beleza, lá longe, nos espantosos momentos do dia e da noite
sentar-me numa pedra e ver como a terra desdobrada à frente é linda
caminhar pela maré vaza, os rochedos e o sargaço de bom cheiro, do tanto a Norte
e viver, sentir, estar, com a minha flor amarela, a minha pequena Primavera.
Coisas simples - como fazer uma sopa de letras - e tão difíceis me parecem.

Saturday, January 2, 2021

As eternas

Escolho-as como constantes, e contudo efémeras, há tantos invernos que nem sei as datas. 

Para o começo de um ano cheio de vertigens e ameaças. Ainda assim, cheio de vontades esperançosas. Da cor, do ar, do sol, dos mares, dos verdes, das pedras, das nuvens, das árvores, dos quadros, das ruas de outros lugares. 





Todos os sítios especiais que fui descobrindo, onde ia sobretudo em busca delas, pretextos de. Porque tem de haver algo que me move do costumeiro sítio e do silêncio. Oxalá.

 

Sunday, December 13, 2020

E Dezembro descontente

Fica-se, anda-se, com um amargo, um difuso, sentimento de impotência.

Ah, bem sei que não sou só eu... que pretensões não tenho e estou documentada sobre o país e o mundo, além de saber dos meus próximos. Há os doentes, os separados, os que estão sós. Com essas tragédias a que (ainda) não estou sujeita.

Mas estou a ver O MEU dia, os meus dias que se seguem. O descontentamento instala-se em MIM. E é esse que verto na intimidade. Agarrada. Desmembrada.



E Lisboa? Lá está, lá fica. Um ano.


Friday, November 6, 2020

Novembro a contra-gosto

... a conta-gotas, porque não o quisemos tão depressa, tão cinzento e chuvoso. Tão alvoroçado de notícias, deste mundo e do outro. Continuam a chegar-me abóboras, sorridentes, divertidas, em fotografias que dão a volta a metade do mundo, vivências que se apartam de nós, os daqui. Do estado da Europa também. Raramente vejo notícias, leio-as usando a peneira do meu discernimento.

Todos os sinais estavam a ser dados e transmitidos, uma invasão que principiava/parecia mansa, de um capital sem escrúpulos, de liberalismos à revelia dos anseios de pessoas comuns, de gente - que normal? - "escondida" nas suas ideologias fascistas. Há muito. Nestas últimas décadas?

As mensagens pelos diversos aparelhos aumentam. As vozes e as caras agradáveis esmorecem, algumas notam-se de pura perfídia, outras são recordações de presenças físicas: porque agora estamos todos em distanciamento de vigília. A tecnologia que comanda "isto" está cada vez mais atenta e de olhos vesgos; e troca as voltas, e repete avisos, e copia. E invade.

Melancolicamente zangada. Olho a lua e os fins de tarde, da janela. Cogito e medito.

Quantas vezes espreitei estas janelas de manhã mas principalmente à tarde? Uma delas, as que reflectem o sol antes de se recolher, esteve há anos à venda. Vi o anúncio detalhado e andei por ela, era antiga mas airosa e confortável. Posicionada como gosto, Nascente-Poente, e a varanda não tinha prédios onde se me cortasse a vista. Tinha um sótão onde sonhei colocar livros e pinturas. Nunca lá vejo ninguém, em todos os dias que a procuro.




Os reflexos, das coisas e das pessoas, tiveram sempre para mim um encanto, ou uma inquietação, que é inexplicável. Como ver e sentir em diferido. Será assim a minha memória um espelho, onde vejo outros pormenores que me escaparam quando os olhei/vivi directamente.


Wednesday, September 9, 2020

Lugares...

Seguindo "os lugares", ficam-me memórias muito belas
2008/2009/2011



Pelos vastos montes. Do Alentejo.


Friday, September 4, 2020

Lugares onde fui feliz

Não caberiam numa vida,  para os destacar.
Fui (e fomos, porque há muitas e diversas companhias neles) feliz em muitas das terras, cidades, que visitei. Em acasos, monumentos e ruas. Em aldeias, montes e pedras. Em mares ou até, simplesmente, no ar.
A primeira vez que se foi a Lisboa, Outubro 1968, uma chuva imensa na recta de Rio Maior.
A primeira vez que andei de avião.
Era o pôr do sol, as cores tão nossas mergulhadas no mar a que voltei as costas, no autocarro que corria a pista para me levar, sozinha. Chorei todo o tempo, cheia de medo, do que ia fazer, alguma pena do que deixava, interrogações sobre a vida que me esperava. Inquieta.
Vejo-me. Sinto-me. Torno a ver-me em cima, no avião, a olhar o céu, espantosamente luminoso, de um rosa avermelhado, um faded lilás, de cidade grande. Só mais tarde percebi que era isso, o reflexo das luzes da enorme cidade. Hoje sou capaz de ver, num dos meus mapas mentais, o percurso com a "minha patroa", do aeroporto até Hampstead Heath. Encolhida, tantas as ruas, tão diversas paisagens que os meus olhos aflitos registavam.
Desses anos, tenho muitas fotografias de pessoas, poucas do que via: a importância das pessoas na minha vida. Podia nomeá-las pelos nomes.
Agora, estão nos basements da memória
As minhas recordações mudas e, contudo, vibrantes


Os meus alfabetos interiores de que apenas eu sei ler o sentido
Águas passadas




 So long...