Thursday, July 30, 2020

Outras considerações

Há muitos mundos. Se me sinto sitiada no meu, não quer dizer que outros não existam.
Esta janela da net permite-me procurar, saber e sonhar.
Com outros horizontes.
Uma visita antiga a uma galeria de Arte.




Uma viagem "a ver as ilhas" onde nunca fui.


Sonhos de areia.

Wednesday, July 15, 2020

Desculpa

...Filho! Dissemos-te que o mundo era bonito.
Mostrámos os céus e os mares, os campos, as flores, os caminhos, a Natureza diversa, os monumentos da nossa História, falámos das coisas boas da família, corremos contigo, cantámos cantigas, comprámos tantos livros que explicavam a Humanidade, música variada para aprenderes os clássicos e os outros, falámos dos rios e das pontes, comprámos os brinquedos em todas as idades para teu divertimento e instrução, fomos à praia e ao pinhal, explicámos as pedras, os pássaros e a terra, no pouco tempo que nos sobrava do tempo longo do trabalho. Dissemos que tudo poderias superar experimentando e emendando o que não fosse correcto, preparando-te, estudando, aprendendo.
Afirmámos-te que o mundo era bonito, tinha luzes que poderias ir acendendo pela vida fora, iluminando os teus dias.




Não sabíamos, não soubemos, dizer-te que o "viver dia a dia" tem correntes, a vida pode ser fechada a cadeado, que há muitas coisas com duas, ou várias, faces.


Desculpa por não termos almofadado,
alma-fadada,
o teu tempo de agora.
Não te explicámos que para teres o sol na tua vida terias tu de o ir inventando.



Thursday, July 2, 2020

De crenças e descrençs

Acordei perplexa. A pensar nos rastos e restos dos sonhos. Casas, pessoas, diálogos e sítios onde, em sonhos, já fui, já estive. Será possível que se visitem lugares, a dormir, em que já sonhámos ou onde estivemos em sonhos?
Nem descrente, nem incrédula.
Descrédula, sendo que não há uma interrogação mas uma negação daquilo em que acreditei.
Não de propósito, apareceu-me um terraço.
Não há nenhuma ligação entre o que, sempre, desejei e o que, nunca, consegui. Um fio de aranha ao vento dos quereres que todos ignoram.

São lugares apenas. Onde se me espraiam  as vontades.


Sunday, June 7, 2020

No fim do mundo me parece

Tenho por cá muitas pedras, de muito sítios.
(algum dia terei de me desfazer de algumas)
Aqui em frente, pisas de tantos papéis soltos, há quatro:
- uma da Lota, cheia de conchas amalgamadas, de 2009
- uma de dos Caminhos de Santiago, de 2010
- outra da Praia Grande, de 2011
- outra de Monfortinho, de 2005: esta!
Todas me lembram distâncias que revi, verdes e azuis  e amarelos que, só de os lembrar, me fascinam. Acho que até me desce a tensão para valores normais...
Há um alvoroço de viagem que presentemente me preocupa mais que nesses tempos, os das pedras.


Do horizonte a varanda - e águias, todas as manhãs o grupo vinha dar as suas voltas solenes







Então, os passeios: ida a Las Urdes, a propósito de Luís Buñuel, filme "Terras sem Pão", de 1933. Sair e ver, com um pretexto!



Será que ainda há caminhos desertos como este? E oliveiras mais velhas 15 anos?

E esta gente? que foi feito dela, das suas vozes e histórias?


Prometo-me NÃO trazer mais "calhaus"!
Só recordações.


Saturday, May 16, 2020

Janeiro longe

As crianças olham o desconhecido com curiosidade e sem inquietação. Seja um aquário, seja o Capuchinho Vermelho multi-funções, que ora é lobo, ora lenhador, ora avó. No que penso, as crianças estão sobretudo a olhar o belo, o diferente, a apreender emoções. Positivas. Confiantes.





Para mim, é um único traço forte que me prende à vida: as perguntas, as suas conclusões tão próprias, os seus olhares de carinho e divertimento.

Friday, May 15, 2020

De-confinar

Não sei se desfocado
se pela humidade nos olhos
se pela distância

Dizemos: e se nos acontece alguma (desta) coisa e nunca mais os vemos?
E a simples interrogação nos dá uma angústia difusa, um alarme, um espanto, um susto que não aguentamos.
Parece improvável. Mas existe.


Monday, April 27, 2020

Os livros antigos

Do PPP, uma proposta para escolher um livro que tivéssemos lido, não importava quando...
Um dos livros mais importantes "do meu tempo" pequeno foi este:

Calculo que pelos 9 ou 10 anos o tive. Eu comecei a ler antes de ir para a escola primária. Há portanto um lapso de tempo em que lia, ávida-a-mente, os livros ou revistas diversos e variados, em casa dos vizinhos ou nas prateleiras altas, o que vinha à mão.
Sendo - e sou - muito curiosa e dependente de leituras, prefiro procurar a perguntar, daí a pôr-me a ler, literalmente, o Dicionário. E havendo poucos livros em casa, este estava à mão para encontrar palavras e significados de coisas que ouvia ou lia; e de uma palavra ia a outra! Ao mesmo tempo, entrando no liceu, tive o Atlas, o autor era  pai do "vaidoso iluminado pela democracia em liberdade" e esse grande livro então! era uma maravilha, com os seus mapas, constelações e fotografias antigas do mundo como se conhecia. Já viajava por ele.
Mas, ao mesmo tempo (e não posso alongar-me pelas vezes em que pedi emprestado, trepei a algo mais alto para encontrar que ler em sítios esconsos... e lia tudo, mesmo tudo), havia os livros de infância que não esqueço e guardo ainda religiosamente:
- "História da Civilização" de Tomás da Fonseca, onde aprendi a sucessão dos anos antigos, Grécia, Roma, batalhas, conquistas, deuses, mitologia e símbolos
- "A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia", de Selma Lagerlöf, que me levou a ver pelo ar, agarrada ao pescoço de um ganso selvagem, as florestas densas e os gelos, os hábitos das pessoas e os bichos do norte
- "As mil e uma noites", edição de 1940, sem figuras, os contos de Scherazade, com todo o encanto das viagens e aventuras, histórias de que ainda hoje lembro os pormenores
- "O Feiticeiro de Oz", edição de 1946 (tradução de Maria Lamas), onde a viagem de Dorothy, do Espantalho Errante, do Lenhador de Lata e do Leão Medroso, em busca do Mágico de Oz (pela Yellow Brick Road, a música sempre me faria sorrir mais tarde!), era um encantamento
- Os livros do Dr. Vander, um luxo do meu pai, com toda a anatomia dos corpos e curas pelo Naturismo, muito antes de se falar nos "bios"


Comprei para o meu filho, e reli, mais tarde todos os livros "dos Cinco" que em pequena me inclinaram logo a tendência para a Inglaterra, os pequenos almoços e lanches, e aquelas terras verdes imensas e misteriosas. "As Viagens de Gulliver", os livros da Colecção Azul e da Condessa de Ségur, "O Gato das Botas", "Alice no País das Maravilhas". Serão estes alguns dos mais importantes na minha formação de criança, antes dos 10 anos.
Acompanhada estava, na minha pequena família sem irmãos nem primos.
Mas como a Memória nunca está sózinha,

mesmo no Silêncio deste confinamento, ainda tenho esperança que o vírus, "O Feiticeiro de Oz", seja um embuste, uma invenção maldosa, amparada pela comunicação e ampliada pela necessidade do negócio globalizado,
e o Mundo encontre um Caminho para a Felicidade.


Thursday, March 26, 2020

As notícias

Estranhamente, reparei na data do último post: 2 de Março.
Foi um dia em que alguém muito antigo, muito antigamente chegado, desapareceu. Vivia apenas num cantinho do meu coração, do meu romântico coração cheio de prateleiras. Não preciso de me pôr em cima de um banco para lá chegar, ao pó dos anos.
Deveria deitar fora as velhas cartas embrulhadas em papel de flores?
Têm-me vindo à lembrança muitos risos e sorrisos, muita cumplicidade, muitas coisas em conjunto, até roupa... Como sou capaz de me lembrar além das imagens e palavras, as cores, os sítios, os gostos? Slides e slides no meu cérebro, passando sem ruído, como um filme mudo e sem fim.




Em casa, onde sempre nos juntávamos, os dois amigos que (me) estarão olhando do firmamento. Gosto de acreditar que estão vivos, a anos-luz deste nosso mundo.
Ainda, às estrelas longínquas, não lhes chegou a hora das mortes.

Muitos bocados de tecido, muitas memórias.
Graciosos eram ambos. E, apesar de incomensuráveis distâncias de pensamentos, atitudes, opiniões, é assim que me lembro deles.

Monday, March 2, 2020

Junto do rio, junto da foz

Deixo
o som e o tom do mar,
a transparência das asas,
o rumor dos pensamentos soltos,
a atenção da garça real,
a fluidez líquida do coração,
a promessa nas pontas da árvore.









Era Fevereiro, apenas um mês que custa a passar,
entre pontes.


Sunday, February 16, 2020

"Que farei

...com este livro?"
Peça de Teatro escrita por José Saramago em 1980, em que imagina Camões a perguntar-se sobre o seu livro acabado "Os Lusíadas".
Que farei com este lugar?
Pergunto-me eu, sobre livros, sobre roupas de Londres e de festas, sobre discos que recordam várias épocas, sobre as mil e uma coisas que se foram compondo comigo e em mim ao longo de décadas.








Da maior parte delas, dos colares, cartazes, fotos, pequenas miniaturas, sei a origem, o lugar onde. As pessoas que.
Amontoam-se as memórias mas de mim, como eu era, já vai restando pouco.
É muito difícil ter a cabeça (ainda) nova e o corpo, as vontades, as energias, já velhas.
"...Splendor in the grass...
...Strength in what remains behind"
Com tanto que sei, tanto que vi e vivi, com tantas certezas... há um salto que não dou, não consigo, nem sei como dar.