Wednesday, June 19, 2019

Pensamento sem ponta por onde se lhe pegue

Gosto e encontro associações, pessoas ou coisas. Faço-as sem querer, às vezes bem tolas! Isto porque o tempo, os acontecimentos (cimentos...), mostram ou acontecem, ou porque por vezes me fazem comentários, gente de quem não conheço, nem rasto,
com grandes máximas sobre amizade, poesia, literatura... sei lá que mais!
Hoje, com uma das frases-comentário no meu lugar-outro, apareceu-me um pensamento como resposta:
A amizade é como o cimento: precisa da mistura certa e tempo de maturação. E pode-se sempre esquece-la ou deitá-la abaixo com as marretadas da vida
Pouco poético!!!
E há-de aparecer-me uma fotografia "com cimento", do Paraíso e do Monte da Virgem...

Que de amizades tenho muitas, por ex. esta, no Homem do Leme

Notável: estas fotografias, fiz agora as contas, têm mais de 50 anos!

Monday, May 20, 2019

Criança do sonho

As crianças
espreitam o mundo
Sobem a vida com as suas asas pequenas
"Dois anos e tal"
São fazedores,
escritores de sonhos.
Revive-se.

Nos arcos da memória.


Tuesday, May 7, 2019

Intervalo para borboletas

Digo até já
às flores, às cores, às estantes de tantos livros e apontamentos
a estes lugares e pessoas, terras daqui e esquinas dacolá, onde a âncora se prende há meses




Vem-me pousar, minha bela borboleta!


Wednesday, April 24, 2019

Se

Quando olhares o céu à noite e vires estrelas, em uma delas estaremos, olhando por ti e para ti.
Porque a imagem demora tanto tempo a chegar à estrela, milhões de anos luz, os nossos gestos de amor permanecerão lá.
Quando a gaivota voar na praia, lembrarás a "gaivota remota que queria ir para o campo". E o "peixinho que queria ver o sol".
Do futuro te deixamos. Apenas isto.
Minha menina amada.

Wednesday, April 17, 2019

O passado

Este lugar é reservado às penas e contradições. Mostra mais do que sinto que as palavras e actos. Sou uma sombra-sombria do que fui e não me reconheço. As alegrias são falsas e vêm de fora. Dentro, um desânimo de ânimo.
Por vezes, encontro palavras de outros, imagens, que depois sonho em sonhos ou pesadelos.
Como se andasse pelas cidades onde estive dantes e tudo me espantava e enternecia. Passeio-me por reflexões e pensamentos, incapaz de viver a realidade sem azedume do passado.
1972

1973
 2015
Um caminho com pedras e alguns verdes. No últimos anos, o mar e a lonjura, o prazer único de estar longe.
2017

Citações retiradas do filme "Reviver o Passado em Montauk", do realizador Volker Schloendoeff. O filme baseia-se no livro autobiográfico do escritor suíço Max Frisch, publicado em 1974.

"Só há duas coisas que importam, as coisas que lamentamos ter feito, aquilo que não podemos desfazer, e as coisas que não fizemos e devíamos ter feito, e que também lamentamos mas agora já é tarde.
É fácil dizer que essas coisas não têm importância, porque já passou, mas têm.
Isso na verdade é aquilo que importa. As coisas entre umas e outras não importam para nada."

Suponho, e ouço, e leio, e vejo, que não deva ser assim.

Sunday, March 10, 2019

A pequena mãe

7 anos passaram desde que fiquei orfã, mãe e pai.
Deles me lembro todos os dias, ora "por causa das abelhas", ora pela Natura... ora por causa do "Dia da Mulher" ou as comidas, ou
as faltas-tantas, desgostos-demais!
A neta (mais) linda fez dois anos, como haveria de gostar dela!
Já foi Carnaval. E a minha mãe não era nada de carnavais, nem de cantar.
Do dia da mulher, só mesmo os muitos dias que passou em opressão (eufemismo: não morremos nós, as três mulheres da casa, por sorte).
Eu, que não tenho nenhuma fotografia ou pose de mascarada, festejo na pequena O. o que o pai dela, meu avô, fez e emoldurou com gosto!

À "Vianesa", nem que data foi nem que idade tinha: apenas "penso em ti"!

Thursday, December 20, 2018

Avós

Homenagem a pessoas simples. Dezembro 1938: morria o avô Antero.
Dele, só sei das fotografias, sempre sério. Do que diziam, sei que era bom.


De 6 filhos, apenas ficou a minha mãe. Do fundo do tempo, eu surgi, por ela, que tinha 18 anos.
1978. Ao avô Antero, de quem actualmente ninguém lembra o nome, nasceu-lhe um bisneto, meu filho. Neste tempo presente, 80 anos passados, há uma neta nossa que tem os azuis de olhos familiares.
Dos ramos, podados que são, folhas novas.
Em números de oito(s) me movo, em infinitos.
48, 58, 68, 78, 88, 98: receei este ano, ainda não acabado.

Da correcção corajosa com que viveram a vida, num outro século, ficou-me também esta tristeza séria, este modo de ser.

Wednesday, November 7, 2018

O Casaco

Passam meses, passam anos.
Acho que só tenho uma maneira de viver de acordo comigo: repartir, coisas ou sensações. Pelo bem, pelo bem, trá-lá-lá...
Tenho pensado nos últimos anos que "se me retornasse tudo o que dei" na vida, seria uma pessoa mais rica, seguramente. Decisão de (algumas) pequenas arrumações, que as grandes são de outros tempos atrás: listas que fui fazendo, propósitos, que ia riscando à medida de os ter feito. Passos gigantescos, memórias agarradas como musgo antigo.
Desta vez, entre outras coisas, o "casaco de redingote"! Fui ver o termo que me ocorreu mal peguei nele, tantas são as vezes que palavras recuadas no tempo e tão estranhas me surgem no pensamento.
Do inglês: casaco de equitação riding coat e do francês: redingote sobre casaca.
Apareceu guardado desde um casamento há mais de 25 anos.
O noivo morreu há muito tempo, a noiva contente, que vou vendo às vezes, está baça e chupada como uma castanha pilada, não necessariamente por causa da falta do marido mas porque as pessoas têm percursos insondáveis. Um caminho aos zig-zags, complicado, mas qual o não é? Neste caso, um despropósito da vida, onde se nota "a cruz" assumida, de uma parecença ou marca familiar marcante. Do filho, uma criança encantadora nos primeiros tempos, não me recordo de o ver nos últimos anos; e o que sei agora não é de molde a querer sequer trocar olhares ou palavras com ele.
Comprado para a ocasião, poucas vezes foi usado, visto que me tornei prática, caseira e desempregada, pouco tempo depois.
Eis o que vai... e fica a marca neste lugar escondido, de poucas palavras, mas que hoje me apeteceu de "muitas".
Nenhuma "pobrezinha" o poderá vestir, a menos que sirva de cobertor a um sem-abrigo.


As ironias que me assaltam e que só posso confessar a mim mesma: tanta blusa, tanto fato, tanta carteira em couro, tanta secretária-gerente-sócia. Puff.
Tantas coisas de que já me livrei e outras tantas para me livrar!
Adeus "redingote"!

Monday, July 30, 2018

Há mais marés que marinheiros

... e há muitos dias, demasiados, "assim".
Em que a maré vaza e o entardecer dos tempos, como a idade e os acontecimentos, sem agrado nem apelação,
me impedem de ver as belezas no dia de hoje.
Volto atrás.

 Se penso em distanciar-me,


recuo.

Sunday, July 22, 2018

Os cartazes (recuperados) algures

Não só as paisagens
não só as comidas as flores as cores.
Há pequenas coisas, apontamentos, que acontecem e é como se visse/encontrasse gente amada e conhecida.
Assim foi nesta viagem de jardins. Isto no restaurante onde o sarrabulho é feito como sempre e parar lá, à beira rio, comer e descansar os olhos, é como sair (dos prédios), tempo e espírito voando, para trás.



Tal o tempo destes cartazes, da esperança, do muito trabalho e entrega, das horas altas da noite, dos segredos, idas e vindas. Abril 1974 em diante, um fulgor.
Hoje, um pouco dobrados estamos todos mas que haja alguém que recorde.
Num lugar improvável, fiquei feliz por os encontrar.


Sunday, July 8, 2018

Coisas de Lisboa

Nas passagens, ou como se usa para proteger as dunas da praia onde desagua a memória, "nos passadiços" de mim, vou cobrindo as noites, vou cobrindo as claridades.

Com coloridos do mundo
Pouco ouvindo e pouco falando, os meus olhos adquiriram uma maior acuidade e algures no meu cérebro são arquivados os slides momentâneos, as imagens, como uma corrente. Para trás, muitas pontas soltas, tantas vezes recuperadas nos sonhos, nos intervalos solitários.
Queaquivêm. Ou vêem.

Com doçura, escolho os pássaros da menina, imaginados há tempos, há quase um ano, de passagem por Mértola

Procuro uma tartaruga simpática, encontro os peixes a rir.
Viajo pelos sítios que conheci e pelos que nunca conhecerei.
De passagem rápida na FIA, Lisboa.
(à procura, sempre procurando as chinelas japonesas Zari Tatami que, tal como as sabrinas, fazem parte do meu imaginário de simplicidade).

Wednesday, May 9, 2018

As pequenas mãos dos outros

... antigas e de outras civilizações, dizem até depois para o intervalo de Maio.
Ontem ao ver a pobreza e as vidas num documentário de 1955, de pescadores no sul de França, pensei
que o mundo é todo igual 
em misérias e grandezas, em temperamentos e atitudes.

O verniz da civilização parece embaciar a realidade. 

... e contudo a Arte e a Natureza salvam-nos, são outros os olhos, lavados, paisagens interiores construídas com outras faces: a da imaginação e a da naturalidade dos ciclos da terra.


Saturday, May 5, 2018

A passerelle dos dias

Entram, saem, telefonam, dizem e dizem-se.
Estranheza de me sentir "separada" de tantas coisa havidas e a haver.
Ontem vi um documentário de Luchino Visconti, um realizador de que me lembro a seguir à primeira década de vida.
"Aimez-vous Brahms", 1961, música-tema do filme que me ecoa nos ouvidos. Françoise Sagan e a sua irreverência à época, os seus amores tempestuosos, as amarguras de um tempo que não era ainda o meu mas já o vislumbrava solto e preso, com mais horas de desconforto, ou desgosto, que de alegria.


Sempre com a beleza e ternura dos gestos inacabados



Soltaram-se e partiram-se mãos e amarras. São estas mais psicológicas que materiais


A lembrar gestos e pessoas, de como éramos diferentes. Uma vez vestimos blusas iguais, saias parecidas, era tudo de Londres e das mocidades bonitas.
A extravagância de sermos, ou nos fazermos, de gostos idênticos...


Poucos anos a seguir nos enfaixavam e afastavam, os homens e as vidas incomuns



Na beleza dos gestos antigos as encontro, as "Três Graças".


E suspiro, décadas de afastamento, se dias seguidos em anos nos vimos e falamos.