Tuesday, February 25, 2014

Duas mulheres

de quem sinto a falta.
Não vos visitei, penso-vos, em humilde pensar sem palavra.




Que a terra vos transforme em flor, em chuva, em nuvem.
Que as aves vos levem na respiração dos pássaros.

Guardo-vos.

Tuesday, January 21, 2014

Sendo improvável

...sentir a alegria, o conforto, a ingenuidade,
a profunda identificação com o outro,
assim mesmo tentei reatar os fios.
(um pouco aquelas meadas de lã enredadas de que fizemos 3 novelos)


Certo é que através dos anos, os pais, os amores, os livros, as fugas, ainda se colhem algumas camélias do quintal onde brincámos.

Thursday, January 2, 2014

Reflectir no novo ano 2014

Ainda e sempre, na condição (minha) humana, na dor, no desapontamento, na incógnita.
No que dos outros de (más) ideias ou sentimentos me sinto apunhalada ou simplesmente picada.
Em relação ao bom ar de que pretendo rodear-me: arte, natureza, partilha das coisas, estética, bondade, ternura, gentileza. Isso que me é intrínseco e, parece-me pela realidade, não consigo transmitir.


Ian McEwan no livro “Sábado”

Houve em tempos em que se pensava comodamente que, para nosso benefício, estávamos rodeados de autómatos comestíveis em terra e no mar. Afinal, sabe-se agora que até os peixes sentem a dor. É esta complicação cada vez maior da condição moderna, o círculo em expansão da compaixão moral. Não somos apenas irmãos e irmãs de povos distantes, mas também das raposas e dos ratos de laboratório, e agora até dos peixes. Perowne (Henry) continua a pescá-los e a comê-los e, embora não fosse capaz de meter uma lagosta viva em água a ferver, não tem qualquer problema em pedir uma no restaurante. Como sempre, o segredo, a chave do sucesso e do domínio humano é ser selectivo nas compaixões. Por muitas coisas muito esclarecidas que se digam, é o que está mais à mão, o visível, que exerce a força que tudo domina. E aquilo que não se vê... É por isso que na amável Marylebone o mundo parece tão profundamente em paz.”
***

Tuesday, December 31, 2013

Uma janela


... um olhar atento, me bastaria.
Fosse para o verde do campo ou do mar.
A pedra, o prumo, o rumo.

A luz.
Duas cerejas.
Ou um pássaro.
Coisas amadas e inúteis de tão comuns.

(Ah... e vou substituir hoje o  Bookmark Calendar 2013 dos escritores e pensadores irlandeses, pelo Calendrier da Provence 2014, ambos dádivas graciosas de uma amiga. Vão umas, vêm outras. Folhas e amigos).

Friday, December 13, 2013

Vida

Beber a vida como água?




Na sua evanescência, no seu correr fugaz, na sua sombra e luz.
Teria eu pensado o mesmo há 50 anos? Há 5? E que me adiantou?
Não me encontro mais perto da fonte, antes me aproximo da foz.

Sunday, December 8, 2013

Caminha



Um laço no cabelo, de riscas amarelas e castanhas, o vestido de fazenda fina cor creme, uma fita de veludo castanho a sublinhar os folhos. A mãe fez-lhe o vestidinho e penteou-a, a sua menina era sempre escolhida para as festas de casamento.

O indicador e o polegar unidos num círculo por onde passaria o mundo. A custo.
Leva a testa franzida, já - e irá tê-la ainda mais o resto da vida.
Caminha a "menina das alianças" levando uma bandeja de prata.

Caminha ainda, sem bandeja nem decisão.

Sunday, November 10, 2013

Apenas ausência

... em anos que não contam como anos mas em centenas de dias em que me estás longe.
Sem resolução. Não há.
Nem reparação de erros. Não se pode.


Bem sabes que me aflige
a terra a chuva os compromissos de finados e idos
essas coisas de falar assim e assado.
Todas as noites o meu olhar não é nenhuma conversa contigo:
é oração a ti: é tomara que tivesses tido uma vida mais feliz...

Thursday, September 5, 2013

Amar mar


Como foi
como é
como vai ser. Este mar igual e diferente, eu-em-mim.

Wednesday, July 10, 2013

Reflexão de praia


... quero é  vestir uma saia das coisas do mar,
gratuitas aos olhos,
no ardor das tardes de Verão.

Ao caçar as ventosas que sugam,

o que resta do beijo das pedras?

As marcas dos dedos no tempo,
... ah, se vou aferir o que me deram,
o que me tiraram,
o que dei,
melhor será que durma-bruma
sobre o leite derramado.


Monday, May 27, 2013

Um ano após


..ir, voltar, desaparecer.
Uma sombra de luz, algures, o meu pai.


Apenas lembrança, piedade pelo silêncio que nos envolveu tanto.
Qual de nós viveu orfão?

Wednesday, April 10, 2013

Remexendo

... em papéis, do campismo, da tropa,
e das famílias.
Veio-me à memória um livro "A Truta" de Roger Vailland, editado em 1964, e que eu teria lido nos anos 70, exactamente com o pensamento em.
Que existia lá, pessoa-peixe.


Que existe, insisto.
Procurei a fotografia e faço o casamento da memória. E chove.

Friday, March 15, 2013

Mas...

Depois deste tenebroso estar.

Talvez haja LUZ... quem sabe das minúcias do pensamento
que temos
ao olhar o coração da flor?

Wednesday, March 6, 2013

O que não compreendi, nem a seguir nem depois


nem nunca irei compreender e também ninguém me sabe explicar: como é possível que sozinha tivesses ficado, na penumbra da enfermaria.

E que as horas de morrer à noite no hospital, entre convalescentes, feridos, mortos e doentes, entre os que tomam café nas madrugadas
ou dormitam ou falam das suas vidas,
seja "sempre" às 7h da manhã.
Sabias bem que não acredito no que não entendo e que luto, luto meu e sempre, contra a desumanidade a que (todos) se vão habituando.
E eu pedi, quase exigi, ficar contigo, contra as normas.
Mas que normas, mãe?

Monday, February 25, 2013

(sem) Mãe




Os anos de ausência vão contar-se, mãe, um a um.
E contudo foste tu que "me fizeste" o coração, com o teu sangue e o teu (parco) alimento.
Vocês as duas, mãe e filha, viviam com dificuldades, eu lembro-me, mãe.

Feliz Aniversário, mulher bonita.

Leva uma memória etérea à minha Amiga, a melhor, a mais simples: a L., sabes? a que dizia "deixa lá".
Morreu no dia dos teus anos já há muito tempo.
Os corações não se apartam, mãe, eu percebi.


Thursday, February 21, 2013

A não-árvore

Como sou muito imaginativa, e muito muito mais quando algo presencial não me agrada,


continuo a ver a imagem de há um ano atrás:
que a minha árvore tem luas penduradas.

Friday, February 1, 2013

Em todo o lado...



... se procura, ou encontra, a ternura.

Um dia
hei-de ter um jardim
fazer um azulejo

ou atirar um beijo.

Tuesday, January 22, 2013

Eugénio ainda, com a luz do sol e as crianças






Porque SIM, porque a música, porque as crianças, porque o amor, porque a milenar face do homem brilha estelar, porque a Poesia.

Ouvido na RTP2, na voz própria dele, sem lhe saber o título nem o livro onde.

"As crianças são o verde dos frutos
as abelhas todas do rumor dos pulsos
As mulheres procuram impedir que cresçam
quebram-lhes a raiz tímida de desejo.

Trago-as comigo,
                deito-as no poema.

O que em mim é riso
                põe-se à janela."

 

Sunday, January 20, 2013

Eugénio de Andrade

O poeta das luzes: as fortes, as coadas pela mágoa.
Breves carícias, soltos sentimentos, crianças meditando a infância, adultos pensando nas (suas) perdas.

Porque 90 anos de nascimento do poeta, vida se não fora a morte:

"Casa na Chuva

A chuva, outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei porque voltou esta tarde,
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva,





a chuva sobre o teu rosto."

Do livro Antologia Breve de E.A., Circulo de Poesia, edição Moraes Editores /1980.

Thursday, January 17, 2013

Do campo a santa alegria


Indiferentes a crises que não sejam as da Natureza, cataclismos,

indiferentes ao dinheiro, à cobiça,
à conversa, à preguiça,

os pequenos punhos da Primavera, a brotar da terra e das árvores.

Saturday, January 5, 2013

Véspera de 6, de Reis

Se imagino que o carácter é como a coluna vertebral no corpo do espírito,
dói-me, mói-me.
Ambas como ossos envelhecidos, gastos de ser.




Apetecia-me "não"
e assim pousar, pintar de pensar,
silente e ausente
- e o mar.