Monday, February 25, 2013

(sem) Mãe




Os anos de ausência vão contar-se, mãe, um a um.
E contudo foste tu que "me fizeste" o coração, com o teu sangue e o teu (parco) alimento.
Vocês as duas, mãe e filha, viviam com dificuldades, eu lembro-me, mãe.

Feliz Aniversário, mulher bonita.

Leva uma memória etérea à minha Amiga, a melhor, a mais simples: a L., sabes? a que dizia "deixa lá".
Morreu no dia dos teus anos já há muito tempo.
Os corações não se apartam, mãe, eu percebi.


Thursday, February 21, 2013

A não-árvore

Como sou muito imaginativa, e muito muito mais quando algo presencial não me agrada,


continuo a ver a imagem de há um ano atrás:
que a minha árvore tem luas penduradas.

Friday, February 1, 2013

Em todo o lado...



... se procura, ou encontra, a ternura.

Um dia
hei-de ter um jardim
fazer um azulejo

ou atirar um beijo.

Tuesday, January 22, 2013

Eugénio ainda, com a luz do sol e as crianças






Porque SIM, porque a música, porque as crianças, porque o amor, porque a milenar face do homem brilha estelar, porque a Poesia.

Ouvido na RTP2, na voz própria dele, sem lhe saber o título nem o livro onde.

"As crianças são o verde dos frutos
as abelhas todas do rumor dos pulsos
As mulheres procuram impedir que cresçam
quebram-lhes a raiz tímida de desejo.

Trago-as comigo,
                deito-as no poema.

O que em mim é riso
                põe-se à janela."

 

Sunday, January 20, 2013

Eugénio de Andrade

O poeta das luzes: as fortes, as coadas pela mágoa.
Breves carícias, soltos sentimentos, crianças meditando a infância, adultos pensando nas (suas) perdas.

Porque 90 anos de nascimento do poeta, vida se não fora a morte:

"Casa na Chuva

A chuva, outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei porque voltou esta tarde,
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva,





a chuva sobre o teu rosto."

Do livro Antologia Breve de E.A., Circulo de Poesia, edição Moraes Editores /1980.

Thursday, January 17, 2013

Do campo a santa alegria


Indiferentes a crises que não sejam as da Natureza, cataclismos,

indiferentes ao dinheiro, à cobiça,
à conversa, à preguiça,

os pequenos punhos da Primavera, a brotar da terra e das árvores.

Saturday, January 5, 2013

Véspera de 6, de Reis

Se imagino que o carácter é como a coluna vertebral no corpo do espírito,
dói-me, mói-me.
Ambas como ossos envelhecidos, gastos de ser.




Apetecia-me "não"
e assim pousar, pintar de pensar,
silente e ausente
- e o mar.

Monday, December 3, 2012

A um amigo, com gatos






Em 17.10.2009, resposta-comentário. Um breve tempo em que A., espacial e especial,
era o homem bonito dos poemas "com peixes" e "esperanças".
Era um amigo das letras, de sorriso, que gostava de gatos. 
Foi há 3 anos que o escrevi, há quase um ano que ele deixou de existir: um nada na História, um abismo na memória.
(colecciono abismos, com gente que morre tal como com gente que se silencia. Porque também se vai morrendo, de silêncio)

"Escreveria então
talvez a pena
de nunca te ter conhecido.
"Antes" é muito tempo!!!

Com um pingo de brincadeira
uma gota de amizade
raspas de compreensão
uma canção conhecida
um gato da casa
um gesto

se fariam alegrias
as que perduram no tempo
mesmo que breves."

Tuesday, November 27, 2012

A medida do desânimo






Encostada a uma parede.
A torneira e o torno.


Em que medida cabe,
em que medida me afecta?
Em que prensa se esmagou a veia e a claridade,
o som da alegria e o azeite do desejo?

Em que pedras, em que moinho se me ficou o grão?

São dias de silêncios, dentro e fora.

Sunday, November 25, 2012

Aos meus idos


Do incêndio
ficamos na beira da estrada
nós, os jovens troncos.





Olhamos e falamos com pedras
e montes
pela penúltima vez.
Voltaremos na cinza dos lares
com a chuva
que nos dará  a liberdade
de sermos
inexorável regresso à terra.

Monday, October 15, 2012

Sempre





estás...nos pequenos passos que dou, quando (sinto) silêncio só em mim.
Porque a imagem que te tenho é viva e de sorriso bondoso: "fazes bem, filha!".
Esqueço as outras.

Olá mãe,
o mar, sabes?

Tuesday, September 25, 2012

Contar



...os meses e não acreditar. A morte é uma ausência inacreditável. Um terramoto exterior que tudo muda, um colapso interior que subverte o tempo.
Este falhar telefonar-te, perguntar, ouvir-te infinitas queixas, sem saber da última.

Esta falta de "tanto tempo de mãe" é demasiado contínua.
Todas as noites te falo mas todas as noites emudeces.
(olha, aqui verifiquei que as andorinhas cresceram e andam a treinar viagens, outras vidas,
mãe. Que dizes da ideia duma cor verde água para a entrada?)


Thursday, September 6, 2012

Ao meio, o ano






Mãe sabes que não te levo flores nas datas e tempos previstos mãe pensavas e dizias a outros "a minha filha sabe sempre o que há-de fazer"
não é verdade mãe olha que sem te ter perto há 6 meses sem perceber bem
tenho feito tudo por obrigação e instinto.

Achas que vá ver aquelas andorinhas de Maio, se já cresceram, se já partiram?

Monday, June 25, 2012

Pais



Hei-de passar o resto da minha vida sem vos perceber. Faz esta noite um mês que se juntaram num plano infinito.
Sem palavras, nem para mim nem um para o outro.
Se ao menos vos pudesse nascer uma árvore, uma planta, sobre a ausência!

(mas não, só oficialidades, papeis, lixo e pó; e o (in)clemente sol, a persistente chuva no vosso mármore)

Thursday, May 3, 2012

Maio-mês










Maio é belo na juventude, esplendor na saúde, promessa de outros ciclos diurnos, mais cálidos, mais longos.
Para quem sempre viveu o seu Maio intensamente como eu, com amigos, amores, fugas e desvios - e todavia voltava a este caminho conhecido - sinto este mês de grande sofrimento quando, afinal, a vida me transporta ao tempo das perdas.
Conto-os pelos dedos, ausentes.
Porque a Natureza se abre e o nosso lugar se fecha, sem os que se foram, com quem celebrámos Maio.

Não há rosas, nem lírios, nem azuis...
que nos confortem.