Monday, June 25, 2012

Pais



Hei-de passar o resto da minha vida sem vos perceber. Faz esta noite um mês que se juntaram num plano infinito.
Sem palavras, nem para mim nem um para o outro.
Se ao menos vos pudesse nascer uma árvore, uma planta, sobre a ausência!

(mas não, só oficialidades, papeis, lixo e pó; e o (in)clemente sol, a persistente chuva no vosso mármore)

Thursday, May 3, 2012

Maio-mês










Maio é belo na juventude, esplendor na saúde, promessa de outros ciclos diurnos, mais cálidos, mais longos.
Para quem sempre viveu o seu Maio intensamente como eu, com amigos, amores, fugas e desvios - e todavia voltava a este caminho conhecido - sinto este mês de grande sofrimento quando, afinal, a vida me transporta ao tempo das perdas.
Conto-os pelos dedos, ausentes.
Porque a Natureza se abre e o nosso lugar se fecha, sem os que se foram, com quem celebrámos Maio.

Não há rosas, nem lírios, nem azuis...
que nos confortem.

Saturday, April 28, 2012

... ou mente delicada



Estas coisas de coração decorativas de cor e acção
belamente inesperadas pelo tempo e trabalho, pelo improviso que ensaia encontrar gostos,
dão-me assim como que uma espécie de tépida ternura. E o correio também pode trazer ternuras, sem publicidade, sem contas - só mesmo sentimento almofadado
dentro de envelope.
A pequena felicidade que às vezes se toca: há panos com flores, há flores com panos, há só flores. De L., de A., de I., de M.
Já não me bordavam flores há que anos!
***
Saltam memórias de graça e juventude. E nunca perdoarei a mim mesma não ter "tentado" tirar uma fotografia a dois presentes com flores, isto num passado dos 30 anos, talvez até dos 20: um amigo que soube de repente que era o meu aniversário e foi ao mercado do Bom Sucesso. O gosto e o gozo que lhe deu ter comprado à vendedeira as flores, jarra e tudo, assim mesmo!
A outra vez foi ter chegado uma das minhas colegas derreada com "um monte", literalmente "a bunch of flowers", com as flores mais humildes-mais normais que a loja tinha nesse mês. Não era um ramo ... era um enorme apanhado de jardim inglês. Já lhes encontrei o rasto, nos quadros impressionistas.
Recuando ainda mais, um pequeno ramo de gardénias apanhadas de um arbusto, pousado ao lado da minha primeira máquina de escrever.
A memória pode ser perversa.

Sunday, April 15, 2012

Delicada a mente




...pega na memória com as pontas dos dedos e com as pontas dos olhos.

Incrustada e impressa que és nos meus gestos, nas coisas que gostavas comigo.
No que discordava de ti e contigo.

Não terei ninguém de quem falar do dourado, da minha infância, sabes?
Mãe.

Friday, April 6, 2012

Mês feito


Sempre te lembrarei, mãe,
em outros dias que não este e também

como um sobressalto uma brecha uma fenda
da vida minha.
Hão-de passar outros tantos anos
até que passe a margem onde estive antes, mãe.

Dos gestos






Vejo-me a tê-los, sempre tão parecidos!

Quando chego a um lugar "não meu" e tem ervas e campo
arranjo uma garrafa, uma jarra, uma coisa qualquer - e faço-o como meu.

(talvez por isso tão difícil perder "hábitos" também de pessoas).

Saturday, March 31, 2012

Circunvoluções


cerebrais
circunvalações mentais
ou eu sempre no "Nó do Problema"

"The Heart of the Matter" de Graham Greene

O que foi feito não se pode refazer
o que foi refeito não se pode desfazer
o que não foi feito não se pode fazer
nem desfazer.

Tuesday, March 27, 2012

Semanas




...quantas?

Fogem-me amores em Março.
Translúcidas as formas.
Antigas já.

Tuesday, March 20, 2012

15 dias de ausência


São as palavras pequenas
para tanta
A AUSÊNCIA,
mãe.

(hoje de manhã dizias-me isto, calada,
no olhar do quadro antigo, no corredor)

Tuesday, March 6, 2012

A Mãe Terra


...era uma vez uma pedra
na floresta. Ao sol da vida.

Foi uma vez, tantos os anos risonhos, tantos os dias confusos.

Os olhos das cores
sem cor nem vida.
Para onde me fugiram os olhos cor de floresta sombria
da minha mãe?

Wednesday, February 22, 2012

Mãe


Estás amparada, mãe,
dos milhões de gestos e atitudes que tiveste tantos anos.
Dos frágeis, dos inesperados, dos casuais, dos femininos, dos egoístas, dos generosos.
Das contas indizíveis, mãe, das convenções.

Estás amparada na almofada do tempo
esperando o nosso tempo de viagem
- o que, em última instância, me vieste pedir.
Que resolvesse a tua vida. Que levasse, decidisse, empacotasse, cortasse.
Pudeste sempre contar comigo e serviste-te sempre disso.
Foi uma inversão de valores, mãe.

O que previa há muito tempo e há um mês. E tanto to disse.
Que a vida à nossa volta é sempre feita de injustiças: a nossa missão própria é procurarmos ser justos nós, com os outros.

Monday, January 23, 2012

Combates

para tão curta, a vida

tantas as batalhas

as formas


os pesos e medidas
Como se o tempo de cada um não fosse finito.

Saturday, December 10, 2011

Do poço da ingenuidade


"Edição da Mocidade Portuguesa Feminina"!!!

Escrita ainda com pena e aparo...

Com o toque clerical que aprendia na escola - que em casa não entravam santismos!

Escritas fugidas ao tempo desencantado actual.
Que agora tudo se trafica nos traficantes e hiper-modelos.
O não comércio, a falta de dinheiro ou de oferta, o que era feito pelas nossas mãos pequeninas.
Saltam-me às mãos as pequenas coisas da ternura.
Tinha tão poucos anos ...

Friday, December 9, 2011

Do poço


Confio cegamente
nas ervas que flutuam vindas de um grão de nada
talvez um pouco de terra
um pouco de sol

e a profundidade de um poço.
Não se sentem aprisionadas.

Thursday, November 17, 2011

Azul-lar


Ao chamamento
respondo com esta casa que nos olha de frente,
acolchoando sardinheiras em vaso esquecido,
na espera das peças de roupa antiga.

Esta, virada à claridade calada de quem não vem.

Tuesday, November 1, 2011

Casa de abandono


Quando?

Por que razão
e onde, em que ensolarado lugar,
abandonaste a casa?

(alguma) A claridade



Segura a janela, minha árvore ferida e generosa.
Enquadra-a e realça-a.
Acolhe os pássaros, não os ouves?

Segura alguma da luz, mesmo com grades.

Wednesday, October 19, 2011

Tardias férias




... mas belas como uma abóbora-menina
de sol amarelo achado nas dunas
(que nunca se transformou em coche)

Intensas, inesperadas, desprendidas,
distraídas como aves e pedras roladas na maré.
Aporto agora, mal.
Encalho nos dias comuns e mesmo nos incomuns.

Tuesday, August 16, 2011

Ilha






Quem semeia, quem produz nos pequenos socalcos que temos e somos?
Quem vê um mar constante, constante-a-mente?
Incorrigível, continuo:

(a)guardar uma ILHA que (es)tivesse a (re)tenção da LUZ.