Sunday, June 25, 2023

A memória do presente

Falávamos as duas a seguir à pergunta: "O Avô vai morrer quando tiver 90 anos?". É inesperada a sensação, como se fica sem jeito e sem palavras para responder a uma coisa tão simples. Entre as ideias que lhe dei -  não se sabe... - de estrelas a milhões de anos luz, onde estão guardadas no tempo infinito todas as imagens e tudo o que se faz, a memória onde sempre vive o que, e de quem, gostamos, fui explicando que a iríamos ver, sempre e quando se lembrasse de nós.

"Eu nunca me vou esquecer de vocês." 


Fiquei com uma onda-nuvem de saudades nos olhos, uma sensação de "para o além", do que se diz ou faz. Um nada silencioso que nos constrange, algures onde se entretecem os fluxos do sangue que nos faz vivos e os sentimentos do amor. Um estrondo como um abismo, algures onde estará, se existir esse lugar no cérebro, a memória do futuro. Um misto de pena e dor antecipada, pela ausência irremediável, pelo desamparo que sentirá quem fica.


Todos os anos, nas muitas grandes ou pequenas saídas, trazia sempre "pedras" ou conchas. Andam por aí, nas gavetas, nos vasos, nos frascos, nas prateleiras. Anos oitenta e antes. A partir de dada altura, em algumas escrevi a data, fui ver: Termas de Monfortinho Outubro 2005, Labruge Outubro 2006, Praia da Lota Setembro 2009, Praia das Bicas Maio 2010, Caminhos de Santiago Setembro 2010, Praia Grande Maio 2011. Além de "beijinhos" e caramujos das praias a Norte, esses em anos muito e muito recuados. Sei que algumas pedras são fósseis pelas figuras e sinais que ali ficaram gravadas para sempre.

E todas mudas, falam de outros tempos. Estas últimas, na varanda de Manta Rota, não as trouxe, ficaram como um "adeus".

Ao mesmo tempo que escrevia, a propósito de tempo/faltas/perdas, recordei a vista em Reguengos de Monsaraz, o antes da Barragem do Alqueva, em Setembro 2001


 



A seguir, um registo da paisagem real - e as de cima foram reais! - o que vi há umas semanas.

E eis como se submergem as coisas físicas mas a terra, por baixo da água, permanece. O céu também é o mesmo. Há o testemunho das memórias, dos que ali viveram, amaram e morreram. 

Mas nunca as árvores. Dá-me pena.

 

Wednesday, June 21, 2023

Músicas e imagens


 Ninguém é de ninguém
Na vida tudo passa
Ninguém é de ninguém
Até quem nos abraça

Não há recordação que não tenha seu fim
Ninguém é de ninguém
O mundo é mesmo assim

Já tive a sensação que amava com fervor
Já tive a ilusão que tinha um grande amor
Talvez alguém pensou no amor que eu sonhei
E que perdi também
E assim vi que na vida
Ninguém é de ninguém

Letra retirada da net, embora eu me lembrasse de toda esta canção, como me lembro de muitas. Por lá encontrei o nome do brasileiro Cauby Peixoto, música editada em 1960. Não sei bem se a ouvia por este intérprete.

Tentei reproduzi-la para reconhecer o timbre. Nada concluí: apenas que muitas vezes acordo com músicas da minha infância. A importância que têm os sons na vida de uma criança! Desde há tanto tempo, para mim, os olhos substituíram os ouvidos.

As imagens do livro que me ocorreram, neste tempo de enervamento e grande espanto, pelas pessoas pequeninas que vou encontrando, no país das minhas vivências. Impossível descrever melhor o que sinto, olhando à volta.

Fica o pensamento, solto.

 

Monday, May 15, 2023

Capital: Paris

A propósito do PPP dia 18 de Maio 2023.

Num lugar mais recatado, este, falo de capitais que conheço: são poucas. Fui aos recônditos das décadas da mente, passei lá adiante, aqui e ali, escolhi Paris. É uma cidade conhecida a pé, do antigo tempo, 1972-1973. Nas passagens de comboio Londres/Porto, Dover/Calais e um dia inteiro na capital de França. A andar de um lado para o outro, sem "museus" mas com ideias muitas. Como diria a Vitorinha "andava a talhar o ar" ou seja, a divagar.

Algumas das velhas fotos







E como não gosto de "faces" aqui apostas e que definam quem é quem, tive a ajuda de M. para o que chamo os seus "malabarismos" que aqui seguem. Uma graça!






Assim, colaborando, com lugares que nos dizem factos e aspectos comuns.


Wednesday, April 19, 2023

Os lugares da mente

Apenas porque passei num lugar "Não me mexam nos JPegs" onde são publicadas muitas fotografias de todo o mundo e gentes; e muito aprendo e vejo e sinto.

Apareceram-me ontem duas fotos minhas, que já não recordava... Lugares de encanto e serenidade de que precisa TANTO a nossa mente. A minha, pelo menos. 

Perto de Tavira e Ria Formosa, em 2013. Ponho-me a sonhar com magias, esperando que passados 10 anos possa repetir tudo.



Esta última é da costa de França, tirada da janela do avião. Para mim também é mágica! 

E os jacarandás de Lisboa, em breve, revê-los.



Saturday, March 11, 2023

Outro lugar (antigo) III

Fotografias à sorte, tiradas nos passeios que dávamos pela cidade. Trabalhávamos das 7h da manhã até às 2 ou 3h da tarde. Dois dias de permanências em fins de tarde, um dia de folga. 5ªs feiras as lojas estavam abertas até às 8h da noite. Era nesses dias em que se andava por todo o lado, Holland Park, Kensington, Portobello, Camden, Marble Arch, Oxford Street, Sloane Square, King's Road, Regent Street, Piccadilly, Soho, Tottenham Court Road, aqui se via o único arranha céus do centro da cidade, completamente deserto. Muita rodagem a pé e muitas roads. Há lojas e lugares de que me lembro os nomes, ainda hoje. Faltam-me os museus onde conheci ao vivo os meus pintores e escultores preferidos; e o British Museum onde fomos, tenho a certeza, e donde não passámos da primeira ou segunda sala, tal a quantidade de coisas para ver! Aprendi, mas muito mais tarde, a estudar percursos e procurar para ver apenas os lugares e exposições que me interessavam.

E, é claro, os parques, os imensos espaços que são um espelho dessa cidade tão multi-facetada. Não se andava um quilómetro que não se encontrasse um parque, árvores, alamedas, relva, canteiros de flores, bancos convidativos. De repente, estava-se fora das ruas, do trânsito, das pessoas. É a cidade de harmonia, de confusão e paz-perto, que recordo; e foi essa que tentei rever e percorri, sempre, nas diversas vezes que lá fui depois.

Aqui em St. James Park

Apanhados no "render da guarda" por acaso...





Uma nota prosaica no devaneio (aqui) da cidade de Londres. Será que as cidades sonhadas têm uma outra qualidade que não têm as que conhecemos bem e onde vivemos? É a idade, o improviso, a novidade? A diferença da realidade ao sonho. De como esses anos em Portugal eram abafados e atrasados: ali conhecemos outros mundos, falamos e ouvimos pessoas de todos os continentes e países, vimos filmes que ainda nem se sonhava ver cá, jornais e notícias, livros, exposições. Comemos comida do Vietnam, da Índia, de Itália, de Grécia, outros sabores diferentes. Os únicos livros que se compraram sobre a verdade da nossa guerra colonial são ingleses. Quando falávamos de Portugal confundiam-nos com Espanha. Deste nosso país não existia notícia, lá.

O improviso se vê aqui, nesta última fotografia de que me recordo tão bem: fazer sopa com as folhas verdes que se tiravam da couve-flor, cozinhar arroz como cá. Não me esqueço das dificuldades enormes, do SEF deles, perguntas e exigências... da exploração, do trabalho que nos saía do corpo: mas, mesmo assim, éramos "mais iguais". Acontecia-me encontrar no elevador do hotel, já arranjada para sair e sem a bata, com hóspedes que iniciavam uma conversa (de onde és? o que fazes aqui?). Recordo turistas japoneses de malas sempre bem fechadas, uns blocos pesadíssimos, o mau cheiro dos búlgaros, os chineses deslizantes, os americanos enormes e de língua enrolada: e um de sapatos amarelos de verniz.

Calculo que com o 25 de Abril se voltaria para Portugal mal fosse anunciada a liberdade e a mudança do regime. Mas nunca pensei que viver e permanecer "aqui" fosse melhor, aliás: nunca imaginei que se tornasse tão mau e em tão pouco tempo.

 


Friday, March 10, 2023

Outro lugar (antigo) II

Férias improvisadas em Portugal, no Verão 1972. De comboio, à noite atravessava-se o canal em Dover até à Gare du Nord, com paragem do dia inteiro em Paris, à noite embarcar na Gare d'Austerlitz, um imenso caminho de 3 dias até ao Porto. Outros pormenores há desse tempo e da volta, que não foi sem sobressaltos. Instalados no que iria ser - não o sabíamos - o último ano em Londres. Não sei quando o decidimos mas não foi sem discussão. Sonhos pelo caminho, trabalho, escola, exames, algumas saídas. Algures no tempo, fomos a Windsor, todas as fotos têm gente dentro: lembro-me das torres do castelo e de um edifício-livraria numa esquina, de equilíbrio improvável, muito antigo.

Southampton

Aeroporto de Heathrow
 

Aniversário com postais, flores, bolo com (ainda poucas) velas...e presentes


Ida em grupo jantar a um restaurante chinês (Bayswater?), com a tábua redonda a meio da mesa, que gira para cada um escolher os pratos e partilhar
A decisão de alugar um carro, entre todos-alguns, para ir a uma "ilha", a Isle of Wight. Vejo agora pelo mapa do "ajudante google" o caminho que se fez. Mas o que lembro bem foi a sensação de pânico ao ver os carros e autocarros "ao contrário"; e um lugar em que se parou para o english-breakfast, numa berma da estrada, uma casa típica inglesa encantadora. E os water-cress espalhados pelo prato, agriões muito pequeninos que nunca tinha visto nem comido. Esse vegetal e os cogumelos, em Inglaterra, foram uma novidade que descobri.
 

O mar entre a grande e a pequena ilha

No ferry-boat, a travessia
Esta foi a primeira vez que vimos um submarino!
 


Passeámos: julgava eu que numa "ilha" iria ver barcos e peixe... que de lá viria o "dover sole" que aparecia em quase todas as ementas dos restaurantes. Mas presumo que à parte o "fish and chipps" que vimos e se calhar comemos, o peixe viria de outros lados! Quase sem fotografias

Mas, vistas agora, ainda lá está a Regent Street e algumas casas como esta, com as suas varandas quebradas e características, o tijolo que as aconchega.