Saturday, May 16, 2020
Janeiro longe
As crianças olham o desconhecido com curiosidade e sem inquietação. Seja um aquário, seja o Capuchinho Vermelho multi-funções, que ora é lobo, ora lenhador, ora avó. No que penso, as crianças estão sobretudo a olhar o belo, o diferente, a apreender emoções. Positivas. Confiantes.
Para mim, é um único traço forte que me prende à vida: as perguntas, as suas conclusões tão próprias, os seus olhares de carinho e divertimento.
Friday, May 15, 2020
De-confinar
Não sei se desfocado
se pela humidade nos olhos
se pela distância
Dizemos: e se nos acontece alguma (desta) coisa e nunca mais os vemos?
E a simples interrogação nos dá uma angústia difusa, um alarme, um espanto, um susto que não aguentamos.
Parece improvável. Mas existe.
se pela humidade nos olhos
se pela distância
Dizemos: e se nos acontece alguma (desta) coisa e nunca mais os vemos?
E a simples interrogação nos dá uma angústia difusa, um alarme, um espanto, um susto que não aguentamos.
Parece improvável. Mas existe.
Monday, April 27, 2020
Os livros antigos
Do PPP, uma proposta para escolher um livro que tivéssemos lido, não importava quando...
Um dos livros mais importantes "do meu tempo" pequeno foi este:
Calculo que pelos 9 ou 10 anos o tive. Eu comecei a ler antes de ir para a escola primária. Há portanto um lapso de tempo em que lia, ávida-a-mente, os livros ou revistas diversos e variados, em casa dos vizinhos ou nas prateleiras altas, o que vinha à mão.
Sendo - e sou - muito curiosa e dependente de leituras, prefiro procurar a perguntar, daí a pôr-me a ler, literalmente, o Dicionário. E havendo poucos livros em casa, este estava à mão para encontrar palavras e significados de coisas que ouvia ou lia; e de uma palavra ia a outra! Ao mesmo tempo, entrando no liceu, tive o Atlas, o autor era pai do "vaidoso iluminado pela democracia em liberdade" e esse grande livro então! era uma maravilha, com os seus mapas, constelações e fotografias antigas do mundo como se conhecia. Já viajava por ele.
Mas, ao mesmo tempo (e não posso alongar-me pelas vezes em que pedi emprestado, trepei a algo mais alto para encontrar que ler em sítios esconsos... e lia tudo, mesmo tudo), havia os livros de infância que não esqueço e guardo ainda religiosamente:
- "História da Civilização" de Tomás da Fonseca, onde aprendi a sucessão dos anos antigos, Grécia, Roma, batalhas, conquistas, deuses, mitologia e símbolos
- "A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia", de Selma Lagerlöf, que me levou a ver pelo ar, agarrada ao pescoço de um ganso selvagem, as florestas densas e os gelos, os hábitos das pessoas e os bichos do norte
- "As mil e uma noites", edição de 1940, sem figuras, os contos de Scherazade, com todo o encanto das viagens e aventuras, histórias de que ainda hoje lembro os pormenores
- "O Feiticeiro de Oz", edição de 1946 (tradução de Maria Lamas), onde a viagem de Dorothy, do Espantalho Errante, do Lenhador de Lata e do Leão Medroso, em busca do Mágico de Oz (pela Yellow Brick Road, a música sempre me faria sorrir mais tarde!), era um encantamento
- Os livros do Dr. Vander, um luxo do meu pai, com toda a anatomia dos corpos e curas pelo Naturismo, muito antes de se falar nos "bios"
Comprei para o meu filho, e reli, mais tarde todos os livros "dos Cinco" que em pequena me inclinaram logo a tendência para a Inglaterra, os pequenos almoços e lanches, e aquelas terras verdes imensas e misteriosas. "As Viagens de Gulliver", os livros da Colecção Azul e da Condessa de Ségur, "O Gato das Botas", "Alice no País das Maravilhas". Serão estes alguns dos mais importantes na minha formação de criança, antes dos 10 anos.
Acompanhada estava, na minha pequena família sem irmãos nem primos.
Mas como a Memória nunca está sózinha,
mesmo no Silêncio deste confinamento, ainda tenho esperança que o vírus, "O Feiticeiro de Oz", seja um embuste, uma invenção maldosa, amparada pela comunicação e ampliada pela necessidade do negócio globalizado,
e o Mundo encontre um Caminho para a Felicidade.
Um dos livros mais importantes "do meu tempo" pequeno foi este:
Calculo que pelos 9 ou 10 anos o tive. Eu comecei a ler antes de ir para a escola primária. Há portanto um lapso de tempo em que lia, ávida-a-mente, os livros ou revistas diversos e variados, em casa dos vizinhos ou nas prateleiras altas, o que vinha à mão.
Sendo - e sou - muito curiosa e dependente de leituras, prefiro procurar a perguntar, daí a pôr-me a ler, literalmente, o Dicionário. E havendo poucos livros em casa, este estava à mão para encontrar palavras e significados de coisas que ouvia ou lia; e de uma palavra ia a outra! Ao mesmo tempo, entrando no liceu, tive o Atlas, o autor era pai do "vaidoso iluminado pela democracia em liberdade" e esse grande livro então! era uma maravilha, com os seus mapas, constelações e fotografias antigas do mundo como se conhecia. Já viajava por ele.
Mas, ao mesmo tempo (e não posso alongar-me pelas vezes em que pedi emprestado, trepei a algo mais alto para encontrar que ler em sítios esconsos... e lia tudo, mesmo tudo), havia os livros de infância que não esqueço e guardo ainda religiosamente:
- "História da Civilização" de Tomás da Fonseca, onde aprendi a sucessão dos anos antigos, Grécia, Roma, batalhas, conquistas, deuses, mitologia e símbolos
- "A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia", de Selma Lagerlöf, que me levou a ver pelo ar, agarrada ao pescoço de um ganso selvagem, as florestas densas e os gelos, os hábitos das pessoas e os bichos do norte
- "As mil e uma noites", edição de 1940, sem figuras, os contos de Scherazade, com todo o encanto das viagens e aventuras, histórias de que ainda hoje lembro os pormenores
- "O Feiticeiro de Oz", edição de 1946 (tradução de Maria Lamas), onde a viagem de Dorothy, do Espantalho Errante, do Lenhador de Lata e do Leão Medroso, em busca do Mágico de Oz (pela Yellow Brick Road, a música sempre me faria sorrir mais tarde!), era um encantamento
- Os livros do Dr. Vander, um luxo do meu pai, com toda a anatomia dos corpos e curas pelo Naturismo, muito antes de se falar nos "bios"
Comprei para o meu filho, e reli, mais tarde todos os livros "dos Cinco" que em pequena me inclinaram logo a tendência para a Inglaterra, os pequenos almoços e lanches, e aquelas terras verdes imensas e misteriosas. "As Viagens de Gulliver", os livros da Colecção Azul e da Condessa de Ségur, "O Gato das Botas", "Alice no País das Maravilhas". Serão estes alguns dos mais importantes na minha formação de criança, antes dos 10 anos.
Acompanhada estava, na minha pequena família sem irmãos nem primos.
Mas como a Memória nunca está sózinha,
mesmo no Silêncio deste confinamento, ainda tenho esperança que o vírus, "O Feiticeiro de Oz", seja um embuste, uma invenção maldosa, amparada pela comunicação e ampliada pela necessidade do negócio globalizado,
e o Mundo encontre um Caminho para a Felicidade.
Thursday, March 26, 2020
As notícias
Estranhamente, reparei na data do último post: 2 de Março.
Foi um dia em que alguém muito antigo, muito antigamente chegado, desapareceu. Vivia apenas num cantinho do meu coração, do meu romântico coração cheio de prateleiras. Não preciso de me pôr em cima de um banco para lá chegar, ao pó dos anos.
Deveria deitar fora as velhas cartas embrulhadas em papel de flores?
Têm-me vindo à lembrança muitos risos e sorrisos, muita cumplicidade, muitas coisas em conjunto, até roupa... Como sou capaz de me lembrar além das imagens e palavras, as cores, os sítios, os gostos? Slides e slides no meu cérebro, passando sem ruído, como um filme mudo e sem fim.
Em casa, onde sempre nos juntávamos, os dois amigos que (me) estarão olhando do firmamento. Gosto de acreditar que estão vivos, a anos-luz deste nosso mundo.
Ainda, às estrelas longínquas, não lhes chegou a hora das mortes.
Muitos bocados de tecido, muitas memórias.
Graciosos eram ambos. E, apesar de incomensuráveis distâncias de pensamentos, atitudes, opiniões, é assim que me lembro deles.
Foi um dia em que alguém muito antigo, muito antigamente chegado, desapareceu. Vivia apenas num cantinho do meu coração, do meu romântico coração cheio de prateleiras. Não preciso de me pôr em cima de um banco para lá chegar, ao pó dos anos.
Deveria deitar fora as velhas cartas embrulhadas em papel de flores?
Têm-me vindo à lembrança muitos risos e sorrisos, muita cumplicidade, muitas coisas em conjunto, até roupa... Como sou capaz de me lembrar além das imagens e palavras, as cores, os sítios, os gostos? Slides e slides no meu cérebro, passando sem ruído, como um filme mudo e sem fim.
Ainda, às estrelas longínquas, não lhes chegou a hora das mortes.
Graciosos eram ambos. E, apesar de incomensuráveis distâncias de pensamentos, atitudes, opiniões, é assim que me lembro deles.
Monday, March 2, 2020
Junto do rio, junto da foz
Deixo
o som e o tom do mar,
a transparência das asas,
o rumor dos pensamentos soltos,
a atenção da garça real,
a fluidez líquida do coração,
a promessa nas pontas da árvore.
Era Fevereiro, apenas um mês que custa a passar,
entre pontes.
o som e o tom do mar,
a transparência das asas,
o rumor dos pensamentos soltos,
a atenção da garça real,
a fluidez líquida do coração,
a promessa nas pontas da árvore.
Era Fevereiro, apenas um mês que custa a passar,
entre pontes.
Sunday, February 16, 2020
"Que farei
...com este livro?"
Peça de Teatro escrita por José Saramago em 1980, em que imagina Camões a perguntar-se sobre o seu livro acabado "Os Lusíadas".
Que farei com este lugar?
Pergunto-me eu, sobre livros, sobre roupas de Londres e de festas, sobre discos que recordam várias épocas, sobre as mil e uma coisas que se foram compondo comigo e em mim ao longo de décadas.
Da maior parte delas, dos colares, cartazes, fotos, pequenas miniaturas, sei a origem, o lugar onde. As pessoas que.
Amontoam-se as memórias mas de mim, como eu era, já vai restando pouco.
É muito difícil ter a cabeça (ainda) nova e o corpo, as vontades, as energias, já velhas.
"...Splendor in the grass...
...Strength in what remains behind"
Com tanto que sei, tanto que vi e vivi, com tantas certezas... há um salto que não dou, não consigo, nem sei como dar.
Peça de Teatro escrita por José Saramago em 1980, em que imagina Camões a perguntar-se sobre o seu livro acabado "Os Lusíadas".
Que farei com este lugar?
Pergunto-me eu, sobre livros, sobre roupas de Londres e de festas, sobre discos que recordam várias épocas, sobre as mil e uma coisas que se foram compondo comigo e em mim ao longo de décadas.
Da maior parte delas, dos colares, cartazes, fotos, pequenas miniaturas, sei a origem, o lugar onde. As pessoas que.
Amontoam-se as memórias mas de mim, como eu era, já vai restando pouco.
É muito difícil ter a cabeça (ainda) nova e o corpo, as vontades, as energias, já velhas.
"...Splendor in the grass...
...Strength in what remains behind"
Com tanto que sei, tanto que vi e vivi, com tantas certezas... há um salto que não dou, não consigo, nem sei como dar.
Monday, December 23, 2019
Tempos de luas
Sendo o que sou, uma pessoa de "luas" e que gosto delas, notando-as e olhando-as sempre que o horizonte o permite...
deixo colorações destes últimos dias de 2019.
O que poderia chamar "Luas da minha janela"
Não tendo a ver com luas, tem a ver com os meus amores por gatos e alfazemas: encantador!
Foto da minha amiga Teresa Domingues, conhecimento que me ficou de outros antigos dias "com árvores".
deixo colorações destes últimos dias de 2019.
O que poderia chamar "Luas da minha janela"
Não tendo a ver com luas, tem a ver com os meus amores por gatos e alfazemas: encantador!
Foto da minha amiga Teresa Domingues, conhecimento que me ficou de outros antigos dias "com árvores".
Monday, November 25, 2019
Este livro
"Uma colmeia sem mestra não se sabe orientar"
Prova do nosso carinho
Aqui queremos prestar
Queremos que compre um livro
O que mais lhe agradar
E o nosso direito reservamos para o autografar...
Subscreve Grupo A.L.I.
***
Em Março 1993
Quase 30 anos passados deste trio, desfeito por ausências.
Um "Presságio de Fogo" que se transformou em presságio de deserto e gelo.
Vindimadas que foram as vinhas do Verão.
É tempo de (apenas) as observar na viagem.
Diz L. na sua "Travessia":
Nunca retroceder, antes correr
Ao encontro das vozes dos ausentes.
Neste espanto, nesta ternura. Assim me fico, fico-me numa pedra de sinais.
Inescrutáveis.
Prova do nosso carinho
Aqui queremos prestar
Queremos que compre um livro
O que mais lhe agradar
E o nosso direito reservamos para o autografar...
Subscreve Grupo A.L.I.
***
Em Março 1993
Quase 30 anos passados deste trio, desfeito por ausências.
Um "Presságio de Fogo" que se transformou em presságio de deserto e gelo.
Vindimadas que foram as vinhas do Verão.
É tempo de (apenas) as observar na viagem.
Diz L. na sua "Travessia":
Nunca retroceder, antes correr
Ao encontro das vozes dos ausentes.
Neste espanto, nesta ternura. Assim me fico, fico-me numa pedra de sinais.
Inescrutáveis.
Wednesday, October 23, 2019
Esta casa
Esta casa onde se vive e(re)vive há muitos anos.
Não tem sol e tem sol. Nascente-Poente como sempre imaginei que um lugar fosse estar onde eu estivesse.
É uma moeda de duas faces, de um lado tem grades e olhos tapados que escondem o horizonte, do outro o fim da tarde surge espalhado em reflexos que eu noto, de cabeça no ar.
Muita gente aqui passa, ou passou, ao largo e cá dentro.
Muitas coisas vi apenas destas janelas.
Um dia me dará para as recolher aqui, antiguidades.
Como as casas velhas que estão aqui há décadas, já sem os azulejos. Ainda lembro de lá morar gente, as janelas com cortinas, os jardins cuidados.
Posso dizer, como penso, que quem permite e se aproveita disto, deveria ser preso, culpado de abandono...
Uns contam tostões, outros têm anos ou décadas para o negócio especulativo, para esperar por milhões.
Já não há "A" árvore que me dizia das estações. Mais tarde apareceram três pequenas japoneiras a que sorri durante poucos anos. Hoje, asfalto, moderno e três pequenas árvores esgrouviadas. Entrou-se no sistema de "sistematizar" dirigindo, os automóveis, as pessoas, sem passar pela fruição dos espaços comuns. Estamos todos de passagem.
Cheguei a ver muitos poentes em diferido e os arco-íris abraçando o horizonte possível.
Olho para o alto agora, com alguma timidez, por sobre as ininterruptas filas de trânsito e paredes, prédios de todos os feitios. Hoje até já vislumbro um novo "super" recheado disto e aquilo.
Por aqui anda à solta a moda das casas fechadas ou de gente de passagem, é o turismo "sem rei nem roque" e o louco aproveitamento dele.
Não cabe aqui lembrar o mar e o sossego das ruas atrás. Nem há fotografias, só lembranças. Como de amigos perdidos.
Não tem sol e tem sol. Nascente-Poente como sempre imaginei que um lugar fosse estar onde eu estivesse.
É uma moeda de duas faces, de um lado tem grades e olhos tapados que escondem o horizonte, do outro o fim da tarde surge espalhado em reflexos que eu noto, de cabeça no ar.
Muita gente aqui passa, ou passou, ao largo e cá dentro.
Muitas coisas vi apenas destas janelas.
Um dia me dará para as recolher aqui, antiguidades.
Como as casas velhas que estão aqui há décadas, já sem os azulejos. Ainda lembro de lá morar gente, as janelas com cortinas, os jardins cuidados.
Posso dizer, como penso, que quem permite e se aproveita disto, deveria ser preso, culpado de abandono...
Uns contam tostões, outros têm anos ou décadas para o negócio especulativo, para esperar por milhões.
Já não há "A" árvore que me dizia das estações. Mais tarde apareceram três pequenas japoneiras a que sorri durante poucos anos. Hoje, asfalto, moderno e três pequenas árvores esgrouviadas. Entrou-se no sistema de "sistematizar" dirigindo, os automóveis, as pessoas, sem passar pela fruição dos espaços comuns. Estamos todos de passagem.
Cheguei a ver muitos poentes em diferido e os arco-íris abraçando o horizonte possível.
Olho para o alto agora, com alguma timidez, por sobre as ininterruptas filas de trânsito e paredes, prédios de todos os feitios. Hoje até já vislumbro um novo "super" recheado disto e aquilo.
Por aqui anda à solta a moda das casas fechadas ou de gente de passagem, é o turismo "sem rei nem roque" e o louco aproveitamento dele.
Não cabe aqui lembrar o mar e o sossego das ruas atrás. Nem há fotografias, só lembranças. Como de amigos perdidos.
Friday, October 18, 2019
Aguarelas e apontamentos de criança
Ultimamente, quando se compra revistas ou jornais, é porque são férias. Ou se escrevem postais. Ou se aponta o que vai passando para "depois de".
Assim foi na Visão, um artigo sobre Tolentino de Mendonça, agora cardeal. Figura que já conhecia e apreciava, do esforço de humanização e proximidade da religião. Dá-lhe um sentido.
Li aí palavras "que vieram ter comigo" nesta fase de pensar em menina pequena. Aqui as aponto.
"O mistério está todo na infância
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura."
"Sentar-se no colo de uma avó e ouvir uma história é ganhar para a vida um amor pelas histórias e pelos livros."
Neste Percurso de Ternura onde vais?
minha bela borboleta
minha flor a desabrochar em água de mundo
"Imagino que, no fim da minha vida, hei-de encontrar a minha primeira casa, o primeiro rosto que olhei, os primeiros que conviveram comigo, o primeiro pão que comi, os primeiros nomes que escutei. Para mim, ao fim da rua existe a infância. Não como realidade deixada inevitavelmente, mas como metáfora daquilo que me espera."
***
Entre muros e distâncias, és para mim o azul.
Talvez possas pensar, num dia, ao longe:
"É muito bela esta mulher desconhecida
que me olha longamente
e repetidas vezes se interessa
pelo meu nome."
***
Eu recortava papéis de jornal, pintava e desenhava, fazia colagens de bailarinas e flores, há muitas décadas, para uma mulher que também assim se chamava, de mau feitio diziam, mas que gostava muito de mim. Eram os quadros e os enfeites que tinha na sua pobreza, para colocar nas prateleiras dos pratos e tigelas, ou em cima da cómoda.
(fotografias recolhidas na exposição no Museu Etnográfico de Campo do Gerês)
Na cidade, também os armários e a louça semelhantes. Lavar na pia comum.
A minha primeira casa, com os primeiros que conviveram comigo, dos primeiros nomes que escutei... avó Vitorinha, Leopoldina, Alice, Sarinha, Menina Lúcia, Mariette e Marietinha, Custodinha... a cada um corresponde uma história de vida que vou (ainda) lembrando.
Tantos "nunca(s)" calados.
Assim foi na Visão, um artigo sobre Tolentino de Mendonça, agora cardeal. Figura que já conhecia e apreciava, do esforço de humanização e proximidade da religião. Dá-lhe um sentido.
Li aí palavras "que vieram ter comigo" nesta fase de pensar em menina pequena. Aqui as aponto.
"O mistério está todo na infância
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura."
"Sentar-se no colo de uma avó e ouvir uma história é ganhar para a vida um amor pelas histórias e pelos livros."
Neste Percurso de Ternura onde vais?
minha bela borboleta
minha flor a desabrochar em água de mundo
***
Entre muros e distâncias, és para mim o azul.
Talvez possas pensar, num dia, ao longe:
"É muito bela esta mulher desconhecida
que me olha longamente
e repetidas vezes se interessa
pelo meu nome."
***
Eu recortava papéis de jornal, pintava e desenhava, fazia colagens de bailarinas e flores, há muitas décadas, para uma mulher que também assim se chamava, de mau feitio diziam, mas que gostava muito de mim. Eram os quadros e os enfeites que tinha na sua pobreza, para colocar nas prateleiras dos pratos e tigelas, ou em cima da cómoda.
(fotografias recolhidas na exposição no Museu Etnográfico de Campo do Gerês)
Na cidade, também os armários e a louça semelhantes. Lavar na pia comum.
Tantos "nunca(s)" calados.
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