Friday, October 31, 2014

A passagem do Outono




Com os seus passos tantas vezes ásperos,
a Vida e o Outono.
As cores gloriosas das lembranças, tal como hoje sinto o sorriso da minha mãe.

Saturday, September 6, 2014

Na saída de Setembro

... quero deixar aqui um até logo de pedras, um até breve de mares.
Para que os meus velhos se sintam acompanhados da menina que fui.
Sempre-gostando das mesmas coisas.
Como dizia eu mesma




não sei onde, aprendi o que era a Liberdade na primeira vez que tropecei numa pedra.
Não teria ainda 5 anos e foi também a primeira vez que fomos acampar.
Creio que foi neste lugar das pedras que falam.

Sunday, August 31, 2014

Fotos do passado (ano 1933?)

Foram hoje para o lixo, as molduras da avó, do avô e do tio Leonel. O belo, com ar de aristocrata, que tão cedo morreu. Os quadros que me acompanharam desde pequenina e falha de amor. Com quem eu falava, parentes próximos dos meus olhos e coração.

 Guardei as fotografias, caras sérias. Soube que eram bons pelos testemunhos de outra gente, dos vizinhos que os conheceram.
As molduras tão antigas largavam o serrim da madeira, dos bichos, esses seres que nem conhecemos e que na terra ou no ar nos desfazem em pó.
A avó Vitória teve 5 filhos: duas gémeas que morreram cedo, o Joãozinho, tão bonito no seu fatinho e boné de fazenda pied-de-poule, o Leonel e a Olímpia.
A minha mãe tinha os olhos cor de avelã. Por vezes mais esverdeados, como mar turvo.
Os olhos da avó foram azuis.

Sunday, August 3, 2014

Da mudança

Por alturas (ou antes) deste casamento

(A Alice, já a vi aqui a viver tão perto, ou ela ou a filha, das coincidências e cruzamentos da vida minha. Da Marietinha, não sei, emprestava-me livros e tinha um primo bonito, o Zé; lembro-me é da mãe que dava injecções, a Noeminha, mulher grande e enfermeira no Hospital, de quem eu tinha muito medo. Do Basílio, sei que deixou um filho loiro e fugiu para França, nunca mais se soube dele. A noiva, ainda hoje me chama pelo diminutivo de criança. Visita e limpa a campa da amiga, a minha mãe.)
Isto porque as mudanças.
Um guarda-vestidos da Vitorinha, juntamente com uma cómoda, deveriam ser os seus únicos móveis de casamento, nos anos 20. Lugar de tudo (pouco) o que era de guardar, de estimar e não mexer. Assim a boneca espanhola que dizia "mamã" e era maior que eu, revirava os olhos e tinha caracóis. Uma bolsa de missangas, tons de verde, rosa, linda (já vi do género em museus), com fecho de tartaruga. O meu conjunto de baptizado. Cartas do avô, escritas com tinta verde, alguma colcha ou toalha das festas raras.
Para abrir o gavetão de baixo onde se enterravam essas preciosidades, o meu esforço era enorme, de tão pequena ainda. Em cima do guarda vestidos, e quando sózinha conseguia pôr um banco em cima duma cadeira, outros tesouros alimentavam os meus dias: uma pequena escrivaninha portátil, com tinteiros de tinta anil, seca, e que fechava com uma cobertura corrediça de pequenas ripas de madeira, postais empoeirados da guerra 14/18 (não sei quem lá esteve), embrulhos de coisas de esconder, livros. Insisti com a minha mãe para que não se desfizesse dele, uns cem anos nos juntavam no tempo que entre nós, as mulheres da casa, fez um arco.
Eu sou unicamente a ponta solta dele.

O presente é tão precário e há tanta gente que precisa...
Dei-o para o quarto de uma adolescente que o modernizou a seu gosto.
Saudades, avó, de quando a vida toda nos cabia num simples móvel.


Tuesday, July 8, 2014

Era dia 6

... quando o pensei.
E tratava das coisas, de nada e de tudo, da minha mãe.
Olhando as janelas de pálpebras fechadas, sinto em mim borbulhando como água, ou quase esquecida como cinza, uma forma de vida que não saberei se alguma vez poderá ser recordada.
Dita ou escrita.
Como a paixão ou a dor.





Forget me not, my dear.

Wednesday, May 7, 2014

Splendor in the Grass


"Though nothing can bring back the hour of splendor in the grass,
 of glory in the flower,
 we will grieve not;
 rather find strength in what remains behind."

Excerto de poema de Willian Wordsworth  (1770-1850), lembrado outra vez ao rever o filme, de Elia Kazan, de 1961.

No propósito de sair.
E deixar para trás, estas ansiedades, estas desesperanças.
Porque "a pessoa partiu".


The Brothers Four - The Green Leaves of Summer Lyrics

Artist: The Brothers Four
Album: Miscellaneous
Genre: Folk
Heyo! SONGLYRICS just got interactive. Highlight. Review: RIFF-it.
RIFF-it good.
Send "The Green Leaves of…" Ringtone to your Mobile
A time to be reaping
A time to be sowing
The green leaves of summer
Are calling me home

'Twas so good to be young then
In the season of plenty
When the catfish were jumping
As high as the sky

Read more at http://www.songlyrics.com/the-brothers-four/the-green-leaves-of-summer-lyrics/#BSd2Gpa6KkcTR2Dt.9
time to be reaping
A time to be sowing
The green leaves of summer
Are calling me home

'Twas so good to be young then
In the season of plenty
When the catfish were jumping
As high as the sky
Read more at http://www.songlyrics.com/the-brothers-four/the-green-leaves-of-summer-lyrics/#K3Vq4Esx6dtTThdX.99
time to be reaping
A time to be sowing
The green leaves of summer
Are calling me home

'Twas so good to be young then
In the season of plenty
When the catfish were jumping
As high as the sky
Read more at http://www.songlyrics.com/the-brothers-four/the-green-leaves-of-summer-lyrics/#K3Vq4Esx6dtTThdX.99

The Brothers Four - The Green Leaves of Summer Lyrics

Artist: The Brothers Four
Album: Miscellaneous
Genre: Folk
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A time to be reaping
A time to be sowing
The green leaves of summer
Are calling me home

'Twas so good to be young then
In the season of plenty
When the catfish were jumping
As high as the sky

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Wednesday, April 23, 2014

O 25 de Abril e as confusões

... que hoje saltam, para os jornais, para as palavras.
Que pena!
Devolveram ao povo a Liberdade de escolher, foram triturados e enganados por forças que nem conheciam. Nem era suposto, bastava terem conseguido manter a dignidade nos meses e anos seguintes e agora, após 40 anos de avanços e muitos recuos.
Hoje, da coerência que pareciam todos assumir para acabar com o fascismo, apenas se trata de garantir o primordial: a disponibilidade e a independência. Esqueçam lá os erres e os esses, os eme-eles, que estão todos garantidos... e tão contentes ficam com isto, de serem os heróis da Revolução a denegrir-se entre si.

Em época de livro escolhido, novamente me vem à cabeça e aos dedos:

"Muitos se envolvem em contendas no palácio; 
         vê só quão enfadonha é a vida na corte."

Excerto do livro "A História de Murasaki" de Liza Dalby, Edições Gótica 2001

Monday, April 21, 2014

Pensar demais e em círculo


Com os tais passinhos miúdos da jovem japonesa, vem a verdade nas palavras do que se pensa, mais de 1000 anos atrás, igual hoje para amigos, família, revolução...

"Não é coisa rara ser esquecido nos tristes tempos que correm -
        mais triste é não ter consolo."

"A História de Murasaki" de Liza Dalby, Edições Gótica, 2001



Ficam as marcas nas pedras, das perguntas sem som.


Saturday, April 5, 2014

Antecipar


...passar "ao seguinte", desconfiar das águas aparentemente paradas.
Por antecipação, poderia ter evitado o que a minha ingenuidade me ditava como certo e fiável.
Amparando com um fio de "outra esperança" o ramo mais frágil.

Monday, March 24, 2014

Não descubro

..."the heart of the matter"

Apetece-me desistir.
Do "heart" ou do "matter".

Tuesday, February 25, 2014

Duas mulheres

de quem sinto a falta.
Não vos visitei, penso-vos, em humilde pensar sem palavra.




Que a terra vos transforme em flor, em chuva, em nuvem.
Que as aves vos levem na respiração dos pássaros.

Guardo-vos.

Tuesday, January 21, 2014

Sendo improvável

...sentir a alegria, o conforto, a ingenuidade,
a profunda identificação com o outro,
assim mesmo tentei reatar os fios.
(um pouco aquelas meadas de lã enredadas de que fizemos 3 novelos)


Certo é que através dos anos, os pais, os amores, os livros, as fugas, ainda se colhem algumas camélias do quintal onde brincámos.

Thursday, January 2, 2014

Reflectir no novo ano 2014

Ainda e sempre, na condição (minha) humana, na dor, no desapontamento, na incógnita.
No que dos outros de (más) ideias ou sentimentos me sinto apunhalada ou simplesmente picada.
Em relação ao bom ar de que pretendo rodear-me: arte, natureza, partilha das coisas, estética, bondade, ternura, gentileza. Isso que me é intrínseco e, parece-me pela realidade, não consigo transmitir.


Ian McEwan no livro “Sábado”

Houve em tempos em que se pensava comodamente que, para nosso benefício, estávamos rodeados de autómatos comestíveis em terra e no mar. Afinal, sabe-se agora que até os peixes sentem a dor. É esta complicação cada vez maior da condição moderna, o círculo em expansão da compaixão moral. Não somos apenas irmãos e irmãs de povos distantes, mas também das raposas e dos ratos de laboratório, e agora até dos peixes. Perowne (Henry) continua a pescá-los e a comê-los e, embora não fosse capaz de meter uma lagosta viva em água a ferver, não tem qualquer problema em pedir uma no restaurante. Como sempre, o segredo, a chave do sucesso e do domínio humano é ser selectivo nas compaixões. Por muitas coisas muito esclarecidas que se digam, é o que está mais à mão, o visível, que exerce a força que tudo domina. E aquilo que não se vê... É por isso que na amável Marylebone o mundo parece tão profundamente em paz.”
***

Tuesday, December 31, 2013

Uma janela


... um olhar atento, me bastaria.
Fosse para o verde do campo ou do mar.
A pedra, o prumo, o rumo.

A luz.
Duas cerejas.
Ou um pássaro.
Coisas amadas e inúteis de tão comuns.

(Ah... e vou substituir hoje o  Bookmark Calendar 2013 dos escritores e pensadores irlandeses, pelo Calendrier da Provence 2014, ambos dádivas graciosas de uma amiga. Vão umas, vêm outras. Folhas e amigos).

Friday, December 13, 2013

Vida

Beber a vida como água?




Na sua evanescência, no seu correr fugaz, na sua sombra e luz.
Teria eu pensado o mesmo há 50 anos? Há 5? E que me adiantou?
Não me encontro mais perto da fonte, antes me aproximo da foz.

Sunday, December 8, 2013

Caminha



Um laço no cabelo, de riscas amarelas e castanhas, o vestido de fazenda fina cor creme, uma fita de veludo castanho a sublinhar os folhos. A mãe fez-lhe o vestidinho e penteou-a, a sua menina era sempre escolhida para as festas de casamento.

O indicador e o polegar unidos num círculo por onde passaria o mundo. A custo.
Leva a testa franzida, já - e irá tê-la ainda mais o resto da vida.
Caminha a "menina das alianças" levando uma bandeja de prata.

Caminha ainda, sem bandeja nem decisão.

Sunday, November 10, 2013

Apenas ausência

... em anos que não contam como anos mas em centenas de dias em que me estás longe.
Sem resolução. Não há.
Nem reparação de erros. Não se pode.


Bem sabes que me aflige
a terra a chuva os compromissos de finados e idos
essas coisas de falar assim e assado.
Todas as noites o meu olhar não é nenhuma conversa contigo:
é oração a ti: é tomara que tivesses tido uma vida mais feliz...

Thursday, September 5, 2013

Amar mar


Como foi
como é
como vai ser. Este mar igual e diferente, eu-em-mim.

Wednesday, July 10, 2013

Reflexão de praia


... quero é  vestir uma saia das coisas do mar,
gratuitas aos olhos,
no ardor das tardes de Verão.

Ao caçar as ventosas que sugam,

o que resta do beijo das pedras?

As marcas dos dedos no tempo,
... ah, se vou aferir o que me deram,
o que me tiraram,
o que dei,
melhor será que durma-bruma
sobre o leite derramado.