Wednesday, July 10, 2013
Reflexão de praia
... quero é vestir uma saia das coisas do mar,
gratuitas aos olhos,
no ardor das tardes de Verão.
Ao caçar as ventosas que sugam,
o que resta do beijo das pedras?
As marcas dos dedos no tempo,
... ah, se vou aferir o que me deram,
o que me tiraram,
o que dei,
melhor será que durma-bruma
sobre o leite derramado.
Monday, May 27, 2013
Um ano após
..ir, voltar, desaparecer.
Uma sombra de luz, algures, o meu pai.
Apenas lembrança, piedade pelo silêncio que nos envolveu tanto.
Qual de nós viveu orfão?
Wednesday, April 10, 2013
Remexendo
... em papéis, do campismo, da tropa,
e das famílias.
Veio-me à memória um livro "A Truta" de Roger Vailland, editado em 1964, e que eu teria lido nos anos 70, exactamente com o pensamento em.
Que existia lá, pessoa-peixe.
Que existe, insisto.
Procurei a fotografia e faço o casamento da memória. E chove.
e das famílias.
Veio-me à memória um livro "A Truta" de Roger Vailland, editado em 1964, e que eu teria lido nos anos 70, exactamente com o pensamento em.
Que existia lá, pessoa-peixe.
Que existe, insisto.
Procurei a fotografia e faço o casamento da memória. E chove.
Friday, March 15, 2013
Mas...
Depois deste tenebroso estar.
Talvez haja LUZ... quem sabe das minúcias do pensamento
que temos
ao olhar o coração da flor?
Talvez haja LUZ... quem sabe das minúcias do pensamento
que temos
ao olhar o coração da flor?
Wednesday, March 6, 2013
O que não compreendi, nem a seguir nem depois
nem nunca irei compreender e também ninguém me sabe explicar: como é possível que sozinha tivesses ficado, na penumbra da enfermaria.
E que as horas de morrer à noite no hospital, entre convalescentes, feridos, mortos e doentes, entre os que tomam café nas madrugadas
ou dormitam ou falam das suas vidas,
seja "sempre" às 7h da manhã.
Sabias bem que não acredito no que não entendo e que luto, luto meu e sempre, contra a desumanidade a que (todos) se vão habituando.
E eu pedi, quase exigi, ficar contigo, contra as normas.
Mas que normas, mãe?
Monday, February 25, 2013
(sem) Mãe
Os anos de ausência vão contar-se, mãe, um a um.
E contudo foste tu que "me fizeste" o coração, com o teu sangue e o teu (parco) alimento.
Vocês as duas, mãe e filha, viviam com dificuldades, eu lembro-me, mãe.
Feliz Aniversário, mulher bonita.
Leva uma memória etérea à minha Amiga, a melhor, a mais simples: a L., sabes? a que dizia "deixa lá".
Morreu no dia dos teus anos já há muito tempo.
Os corações não se apartam, mãe, eu percebi.
Thursday, February 21, 2013
A não-árvore
Como sou muito imaginativa, e muito muito mais quando algo presencial não me agrada,
continuo a ver a imagem de há um ano atrás:
que a minha árvore tem luas penduradas.
continuo a ver a imagem de há um ano atrás:
que a minha árvore tem luas penduradas.
Friday, February 1, 2013
Em todo o lado...
... se procura, ou encontra, a ternura.
Um dia
hei-de ter um jardim
fazer um azulejo
ou atirar um beijo.
Tuesday, January 22, 2013
Eugénio ainda, com a luz do sol e as crianças
Porque SIM, porque a música, porque as crianças, porque o amor, porque a milenar face do homem brilha estelar, porque a Poesia.
Ouvido na RTP2, na voz própria dele, sem lhe saber o título nem o livro onde.
"As crianças são o verde dos frutos
as abelhas todas do rumor dos pulsos
As mulheres procuram impedir que cresçam
quebram-lhes a raiz tímida de desejo.
Trago-as comigo,
deito-as no poema.
O que em mim é riso
põe-se à janela."
Sunday, January 20, 2013
Eugénio de Andrade
O poeta das luzes: as fortes, as coadas pela mágoa.
Breves carícias, soltos sentimentos, crianças meditando a infância, adultos pensando nas (suas) perdas.
Porque 90 anos de nascimento do poeta, vida se não fora a morte:
"Casa na Chuva
A chuva, outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei porque voltou esta tarde,
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto."
Do livro Antologia Breve de E.A., Circulo de Poesia, edição Moraes Editores /1980.
Breves carícias, soltos sentimentos, crianças meditando a infância, adultos pensando nas (suas) perdas.
Porque 90 anos de nascimento do poeta, vida se não fora a morte:
"Casa na Chuva
A chuva, outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei porque voltou esta tarde,
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto."
Do livro Antologia Breve de E.A., Circulo de Poesia, edição Moraes Editores /1980.
Thursday, January 17, 2013
Do campo a santa alegria
Indiferentes a crises que não sejam as da Natureza, cataclismos,
indiferentes ao dinheiro, à cobiça,
à conversa, à preguiça,
os pequenos punhos da Primavera, a brotar da terra e das árvores.
Saturday, January 5, 2013
Véspera de 6, de Reis
Se imagino que o carácter é como a coluna vertebral no corpo do espírito,
dói-me, mói-me.
Ambas como ossos envelhecidos, gastos de ser.
Apetecia-me "não"
e assim pousar, pintar de pensar,
silente e ausente
- e o mar.
dói-me, mói-me.
Ambas como ossos envelhecidos, gastos de ser.
Apetecia-me "não"
e assim pousar, pintar de pensar,
silente e ausente
- e o mar.
Monday, December 3, 2012
A um amigo, com gatos
era o homem bonito dos poemas "com peixes" e "esperanças".
Era um amigo das letras, de sorriso, que gostava de gatos.
Foi há 3 anos que o escrevi, há quase um ano que ele deixou de existir: um nada na História, um abismo na memória.
(colecciono abismos, com gente que morre tal como com gente que se silencia. Porque também se vai morrendo, de silêncio)
"Escreveria então
talvez a pena
de nunca te ter conhecido.
"Antes" é muito tempo!!!
Com um pingo de brincadeira
uma gota de amizade
raspas de compreensão
uma canção conhecida
um gato da casa
um gesto
se fariam alegrias
as que perduram no tempo
mesmo que breves."
Tuesday, November 27, 2012
A medida do desânimo
Encostada a uma parede.
A torneira e o torno.
Em que medida cabe,
em que medida me afecta?
Em que prensa se esmagou a veia e a claridade,
o som da alegria e o azeite do desejo?
Em que pedras, em que moinho se me ficou o grão?
São dias de silêncios, dentro e fora.
Sunday, November 25, 2012
Aos meus idos
Do incêndio
ficamos na beira da estrada
nós, os jovens troncos.
Olhamos e falamos com pedras
e montes
pela penúltima vez.
Voltaremos na cinza dos lares
com a chuva
que nos dará a liberdade
de sermos
inexorável regresso à terra.
Monday, October 15, 2012
Sempre
estás...nos pequenos passos que dou, quando (sinto) silêncio só em mim.
Porque a imagem que te tenho é viva e de sorriso bondoso: "fazes bem, filha!".
Esqueço as outras.
Olá mãe,
o mar, sabes?
Tuesday, September 25, 2012
Contar
...os meses e não acreditar. A morte é uma ausência inacreditável. Um terramoto exterior que tudo muda, um colapso interior que subverte o tempo.
Este falhar telefonar-te, perguntar, ouvir-te infinitas queixas, sem saber da última.
Esta falta de "tanto tempo de mãe" é demasiado contínua.
Todas as noites te falo mas todas as noites emudeces.
(olha, aqui verifiquei que as andorinhas cresceram e andam a treinar viagens, outras vidas,
mãe. Que dizes da ideia duma cor verde água para a entrada?)
Thursday, September 6, 2012
Ao meio, o ano
Mãe sabes que não te levo flores nas datas e tempos previstos mãe pensavas e dizias a outros "a minha filha sabe sempre o que há-de fazer"
não é verdade mãe olha que sem te ter perto há 6 meses sem perceber bem
tenho feito tudo por obrigação e instinto.
Achas que vá ver aquelas andorinhas de Maio, se já cresceram, se já partiram?
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