Wednesday, August 25, 2010

Das marcas de nós









Um dia andarão atrás dos meus traços
meus passos
escritos
expressões de gestos
de fotografias

(como ando eu, a bisneta que sou de jornaleiros do Douro,
andará a bisneta da mulher que sonhou outras vidas?)

E quem?

Saturday, August 14, 2010

Corrida a passo








Passa-te a correr o cavalo da juventude

soltos
os suspiros do amor
os verbos da amizade

E o potrozinho selvagem que domesticaste
torna-se um cavalo cansado das barreiras
- ainda e por vezes
de olhos doces
mas baixos

Sunday, August 8, 2010

Lugar






Porque me disperso.
E correm-me nos olhos imagens duma beleza que dói.
***
Havia um tempo e um lugar
que já não existem
nem ele lugar como era
nem eu tempo como sou
***
E em cada década os amei a meu modo, maravilhado, infantil, violento, nostálgico.
O lugar. O tempo.
Ficam segredos nas pedras.
Risos e pés descalços.

(Vi hoje "Tess" e voltaram-me as cores secas e douradas do fim do Verão)

Tuesday, July 20, 2010

Jogos





O que me surge na cabeça
são os cardos das palavras
os figos doces das pequenas mentiras
parecendo sem importância de maior.

Todo o xadrez que se joga e diz.

Saturday, July 10, 2010

As casas

Como dizia hoje uma amiga
de poesia-cavalos à solta

..."estão cansadas as casas"...


Eu tinha-as pensado hoje como corpos. Telhados desabados sobre vidas e sonhos.
Abandono que sinto.

Sunday, June 6, 2010

Ancients volcains

Um caminho que não sabemos quando será feito; só quando já o foi.

Alava alarga
alágrima que não nos lava nem nos larga
o interior da terra revoltosa
o interior nosso revoltado 

porque a ela tornamos
e só deixamos uma pedra-espelho de lembranças
no amor dos outros (ou não)
- sim, às vezes apetece-me a mística, a natureza torna-me religiosa num certo sentido de inocência e espanto e gratitude -

A lava sabe o que não nos conta, a precaridade. Do calor que arrefece.

Monday, April 5, 2010

Saudades

Hoje dizia a uma das amigas em rede:

às vezes sou parca
e fio
outras sou parva
e rio (de atirar)
outras feliz
e rio (de rir)
quando e ainda
saudosa
mio
(ou ouço)
um silêncio que já era
mas diferente
um silêncio de falta
tal qual quem sai.

( a Kitty estava simplesmente a dormir, nesse dia doutro ano - agora, quando descansou de vez, não a vi)

Sunday, March 28, 2010

Páscoazinha

Não tinha reparado que já há 15 anos me tinhas desejado "Boa Páscoa", gatita.
(eu tinha-te dito "venho já", isso é que me custa, Kitty!!! nem me deixaste falar contigo, tratar de ti como fazia quando estavas com soluços e eu te passava a mão no pêlo, nem vieste para os meus pés enrolar-te para te abrirmos a porta da sala, deixaste a comida "especial" que te tínhamos comprado, enfim, sabes que dormiria à tua beira nessa noite/nessa manhã para te acompanhar ... e não quiseste ... foi para me custar menos a mim?)

Entretanto, dou volta a duas décadas (quase) da vida cá em casa; e nem queiras saber o que me desgostei de pessoas e o que amei teres estado connosco.


Nas minhascoisassoltas, hei-de mostrar-te a tua mãe, a vadia Claudina, como cabias num sapato, as vezes que - afinal! - me brincaste, o que me assustava saltares para a varanda e, tenho a certeza, vou encontrar-te enrolada nos cobertores do nosso filho, um dia destes, quando ele vier.
Até sempre gataminha (anda-Kitianda).

Saturday, March 20, 2010

Gatinha

A minha gatinha brava cabia num chinelo.
Num vaso.
Cresceu em casa, viveu feliz e rodeada de cuidados.
Só eu não estive quando lhe queria falar de ausências, como lhe dizia " a gente vem já".


Talvez me espere a sombra dos seus olhos amarelos dizendo adeus.

Tuesday, March 9, 2010

O primeiro SOL


...quando depois de dias de chuva
a gente-mulheres lava a roupa, abre janelas, limpa humidades dentro e fora,

as aves gozam o tempo,
tão só isso!
Quereria...

Branco Feminino


Quando a diferença do branco
entre tantas cores apelativas de machos, os seus discursos ...

a diferença é Feminina!

Monday, February 8, 2010

Propositada a mente


Quando este lugar
este pensar

é ternura

Pessoas céus flores gestos bichos gotas

Tuesday, February 2, 2010

Re-visitando-me



Verifico não ser
uma múmia sorridente.
Entrapo-me nas minhas coisas

trapped

Monday, January 18, 2010

Gente que chora ...


... antes e depois - dos déspotas das vidas dos outros, os ditadores com carro, com água, com casa, com meios que a população desprotegida não tem. É assim a História e os adultos, os responsáveis não parecem querer saber.

Sinais
concêntricos na água
basta uma simples gota ou folha.
Uma falha dentro da terra.

Acolher a paz possível como uma criança descalça.

Monday, January 11, 2010

O meu 11 de janeiro




Algures em mim
um filho nadava na água de mim.
Veio à tona do mundo neste dia; e entre os (poucos) dias completamente felizes da minha vida, ESTE foi um deles.

Ainda é, não fora a distância-idade-lugar-comum.
(me and him: mim? e por isso consigo sair tão pouco
de mim?)

Tuesday, December 22, 2009


O silêncio prateado - aquele que te não é imposto, o que escolhes.
O silêncio de ouro - quando o fazes em ti para não ferir os outros.
O silêncio vermelho - o da raiva de não poder esclarecer ou falar de.
O silêncio cinzento - o da impotência de ouvir.

O silêncio arco íris que preferimos a outros.

O silêncio das pedras que todavia falam. São as que ouço melhor.

O tempo arrasta-nos, a folha desliza na água, rodopia, 10 anos são um átomo na humanidade e um tão grande hiato em nós.
Renascemos cada dia e morremos cada dia.

E sempre digo que a ternura, o amor, o fraterno laço
ah...esses são os renascimentos sempre que acontecem.
Os pombos da minha janela, árvore esperançada e casas velhas.

Como diria Saramago: para onde irão os pombos se prédios novos com anti-pombo instalado?

Transição





Meus túneis de verdes
minhas passagens secretas
que se vão desfazendo do espírito, mesmo que o convoque na solidão de mim.

Rostos que perdem os traços, gestos que perdem os rostos.

Tuesday, December 15, 2009

Interrogação





Fico-me a pensar
na pena
e que valerá esta pena de pensar?
Na impavidez

(não, não da Natureza; das gentes que (se) morrem matam negoceiam mentem tergiversam)
Gostei do verbo que me surgiu; e no dicionário explicado precisamente o que eu queria

tergiversar: voltar as costas; usar de evasivas, rodeios ou subterfúgios

Poderia dizer-se subterfugas? aos que tergiversam ...
Tanto brilho de um lado e tanta penumbra de outro!

Wednesday, November 25, 2009

Estando estátua




Uma espécie de ficar com aparência de ir.
Visto que é preciso parecer pessoa.
Aos encontros, aos telefones, ao natal, aos convites.

Visto que é preciso parecer.
Que se brilha, que se está atento
(mesmo com alma de pássaro em jardins improváveis).

Tuesday, November 10, 2009

Sinto-sento





Sinto-me este barco, adornada pelos laços que tanto me levam ao largo como me prendem a terra.
Há dois troncos; unicamente dois que conseguem ter por mim "o amor incondicional do conhecimento".
Diria "do não-egoísmo de nós".

Depois, estes meses são tristes, as ruas cinza.

"...nothing can bring back the hour of splendor in the grass..."

Quero é sopas e descanso.