Thursday, July 9, 2009

De esperar




Algo de sede
algo de sombra
algo de máscara
sentada roendo horas.

Eis as faces de eva longe de paraíso.
Eis a mulher-ave-do-paraíso-inatingível.

Pouco barulho, então, meus dias.
Fiquem-se na escada interior.

Wednesday, May 6, 2009

Onda




Gigante, cheia de sinais. Aflição continuada de não os (re)conhecer
nem (de)cifrar.

Do livro "O Leitor" de Bernhard Schlink

"Pensei que, quando se deixa passar o momento certo, quando alguém recusou algo tempo de mais, quando nos é recusado algo tempo de mais, esse algo chega forçosamente demasiado tarde mesmo que seja realmente desejado com força e acolhido com alegria. Talvez "tarde de mais" não exista, apenas tarde, e "tarde" seja sempre melhor que "nunca"? Não sei."

Não sei!

Monday, April 20, 2009

Domingo






As paredes. A voz no labirinto.
Será que alguma vez mais poderemos passear as duas?
Falar sereno?
Falar futuro?
Ver frutos?

... senti-me amarrotada por dentro.

Thursday, April 2, 2009

Possivelmente







... sinto o que esta planta sente.
E volto-me para o interior das folhas.
(parece-me que a natureza humana divide, nos canteiros das suas vidas, cada vida. Ou será porque corações são tantas vezes cactos escondidos? Eu gosto tanto do campo e o ser expontâneo crescer flor entre ervas!)

E há também a palmeira que se julga alta, tão frágil nas mãos abertas em azul.
Dobra, não parte. Ainda.

No tronco, as dores do vento.

Wednesday, March 18, 2009

Só a mente





Um mês depois de lembrar os jardins de Bagatelle. Oito anos passados as flores estarão lá, nunca as mesmas que vi.

Ando pela beira da praia de todo o meu tempo.
Entre as ondas cavadas e retendo um pouco do sol poente.
A luz não demorará a ir embora, para um dia outro, um diferente lugar.

Este movimento da rotação de viver.

Wednesday, February 18, 2009

Cheiro da noite






Apesar de sentir 6º do frio na noite, há como que um perfume espalhado.
O que será que o sol durante o dia despertou nos ramos da minha árvore?
Nos vasos dos vizinhos? Nas trepadeiras dos muros velhos?
Imperceptíveis mudança de seiva.
Que me chegariam. Deveriam chegar-me.
Para saber de outro tempo onde se aconchegarão
as cores e os troncos
as flores e as aves.

Thursday, January 29, 2009

Por outro lado




...tenho pernas para andar. Um sol ao longe e um anjo de tutela.
Em tempo útil, haveria de ter percebido a troca.
Das margens.
Das linhas.

Tuesday, January 27, 2009

Do outro lado


Vou recolhendo as minhas redes.

Há décadas atrás não havia condomínios virados para o rio.
Os domínios iniciavam-se em mim.
Hoje sou uma margem organizada, de certa maneira não agradável.
Mas para alívio de todos, estou no meu lugar.
Acanhada nas margens.

Saturday, January 24, 2009

Sem cor para lembrar



Nenhuma cor consegue quebrar o espessante nevoeiro.
Instalado nas vidas que passam lá fora.
Entra-me pelos vidros e espalha-se no descontente chão do meu tempo.

Thursday, January 15, 2009

Pés quase descalços




Mesmo assim, andem por aí.
Camuflados que seja. Sombras ou artifícios.

Não se pendurem, vazios e sózinhos.

Pés que andam



E nos levaram felizes ou infelizes
ao jardim à cama ao aeroporto ao hospital
ao monte
à areia
ao tempo

Pés de mel







Alguns lugares onde nunca seremos capazes de voltar
ou confessar como e quando,
e que estivemos.

Sítios dos Pés





O que contariam os nossos pés de sítios.
Desaparecidos, os lugares deles.
As companhias passadas.

Monday, January 5, 2009

Recomeçar




Como?
Por que porta?
Onde as luzes no emaranhado das gentes?
De que lado? Com que máscara?

Monday, December 15, 2008

Senso



Sento-me.
Imaginando estrelas e caudas de cometas
mesmo desfocadas pela ordinary life.

Thursday, November 27, 2008

Somente



porque sinto quase irrecuperável a facilidade da luz.
De viver.
Como gosto.

Friday, November 7, 2008

Sentimento-mar



A pedra que aguenta.

A água que não.

Escorre na cara fechada, nas rugas da areia.